Mídia internacional vê Haddad vencendo o crack

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O "Programa Braços Abertos" da Prefeitura de São Paulo, que atua na Cracolândia com o objetivo de capacitar e empregar dependentes químicos, desperta a curiosidade e os elogios da mídia internacional. No último sábado (03), o prestigioso Globe and Mail, de Toronto, no Canadá, publicou reportagem especial sobre a Cracolândia e a abordagem praticada, desde o início do ano, pelo programa da gestão do prefeito Fernando Haddad.

De modo integrado, o Braços Abertos oferece aos viciados que se dispõem a larga a droga capacitação profissional, trabalho por quatro horas diárias, remuneração e atenção à saúde, bem como apoio para moradia. Haddad é reconhecido como a autoridade que melhor desenvolveu um plano para solucionar o problema, servindo de exemplo para outras grandes metrópoles mundiais.

Confira na íntegra a matéria:

O crack é rei no Brasil: o que
São Paulo está fazendo a respeito

Stephanie Nolen


26/04/2014, no Globe and Mail, Canadá

As pessoas que vivem aqui chamam de Cracolândia: uns poucos quarteirões sem árvores no coração de São Paulo, a maior cidade da América do Sul. O nome é uma homenagem sombria à Disney – um lugar, dizem, para o qual se vai para fazer o que você quiser.

Mas não há mágica nesse reino: em vez disso, algumas centenas de pessoas vivendo nas ruínas de velhos prédios e nas calçadas; tendo por única mobília colchões manchados e pilhas de trapos. Sua pele é de uma cor uniforme de carvão, mistura de queimadura de sol e anos e anos de sujeira. No sol quente do meio-dia, eles sentam nos meio-fio, fumando crack em cachimbos improvisados e trocando uma conversa muda, com ocasional explosão de gargalhadas. O vento levanta redemoinho de sujeira e sacos plásticos: eles observam, imóveis, enquanto circula em torno deles.

A Cracolândia existe há 15 anos, pelas estimativas de seus habitantes. Sua população chega a 1.500 pessoas. E até poucos meses atrás, a vida lá seguia uma triste rotina. A polícia aparecia de vez em quando, prendendo alguns dependentes e espantando outros, que partiriam num desfile mambembe e desesperado, agarrando seus pertences modestos e seus colchonetes, perambulando pela cidade por um dia ou dois até que os agentes da lei passassem a prestar atenção em outra coisa e eles pudessem voltar à suas calçadas familiares.

Então, no final do ano passado, a cidade lançou uma nova política pública ousada para recuperar a Cracolândia em estilo tipicamente brasileiro: com pouca base empírica, mas com convicção de que os cidadãos de uma superpotência emergente merecem mais. A iniciativa é chamada de Braços Abertos e consiste em um esforço de muitas frentes para dar moradia e emprego para os dependentes e acabar com sua "exclusão social" numa tentativa de ajudá-los a se livrar das drogas.

"Essas pessoas são as mais miseráveis entre as miseráveis", diz Myres Cavalcanti, coordenadora de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas da cidade de São Paulo. "E o Estado brasileiro tem recursos para cuidar delas."

Estima-se que existam um milhão de usuários de crack no Brasil¬ - a maior população do mundo - e já foram implantadas uma série de programas diferentes para atacar o problema das drogas sem muito êxito. A questão em São Paulo hoje é: um programa baseado no instinto e força de vontade consegue mudar as coisas?
Cura por meio do trabalho --- Há décadas os norte-americanos vêm se preocupando com a deterioração urbana causada pelo crack. Opiáceos e meta-anfetaminas têm tomado as manchetes (e grande parte da atenção da saúde pública). Mas, como o prefeito de Toronto deixou claro, a mistura barata e ordinária da cocaína nunca foi embora: continua amplamente disponível nas ruas tanto na América do Norte quanto do Sul.
No Brasil, no entanto, o crack não é só amplamente disponível. O crack é rei.

Parcialmente por causa de sua proximidade com os fornecedores (uma enorme e porosa fronteira com países produtores como a Colômbia, Bolívia e Peru), a cocaína há tempos domina o mercado de drogas aqui; comparativamente, há pouco uso de opiáceos injetáveis como a heroína. E o crack é o barato fácil de produzir mais adequado para os usuários de drogas de baixa renda do Brasil (uma pedra custa em torno de $ 2, comparado ao $ 40 da heroína). As gangues enraizadas nas anárquicas cadeias brasileiras dirigem o comércio.

Toda cidade grande hoje em dia tem uma ou várias Cracolândias. No entanto, nenhuma atraiu a atenção como a original, em São Paulo – localizada bem no coração da capital cultural e financeira do país. Da última vez que os dependentes ficaram sob perseguição policial, ele protestaram acampando diante da principal sala de concerto de São Paulo, de maneira que a elite de smoking tinha que desviar deles no seu caminho para o concerto. Moradores de classe média também alegam que a Cracolândia aumentou a criminalidade. As estatísticas policiais não confirmam isso, mas quase todo mundo tem medo de andar pelas redondezas.

De maneira geral, o álcool causa mais danos sociais e financeiros em São Paulo, diz Cavalcanti, mas foi esse acampamento que deixou todo mundo de cabelo em pé em relação às drogas.

"É chocante. Como se pode ter uma Cracolândia no meio da cidade, com pessoas usando drogas à luz do dia?", ela afirma. "É como um bairro perdido o meio da cidade."
O Brasil tem uma política pública federal anti-crack (Crack é Possível Vencer), voltada para educação pública para desencorajar as pessoas a começarem a usar e coibir as vendas; o governo financiou leitos em instituições psiquiátricas para pacientes em tratamento.

Mas o governo também manda usuários para clínicas de recuperação, em sua maioria dirigidas por organizações católicas ou evangélicas, onde o tratamento é baseado em orações e cura pelo trabalho manual. Bruno Gomes, um partidário da redução de danos que trabalha na Cracolândia, diz que essas instituições em geral carecem de pessoal treinado para tratar de dependência química e as pessoas entram e saem de lá entre 15-20 vezes sem qualquer mudança no uso da droga.

O Governo do Estado (a cidade de São Paulo é sua capital) também tem um programa para dependentes, que estabelece um dispositivo legal permitindo que as famílias forcem os dependentes a tratamentos. Esse programa é popular entre pais desesperados – aproximadamente 30 pessoas por dia se inscrevem (ou são inscritas) – mas raramente resulta em uma solução permanente. Os usuários de droga conseguem ajuda enquanto estão na instituição, mas são dispensados sem moradia ou emprego.

Então, em janeiro passado, o recém eleito prefeito de São Paulo, um acadêmico de esquerda chamado Fernando Haddad, decidiu tentar algo diferente.

Braços abertos --- A prefeitura assumiu uma série de hotéis baratos em torno da Cracolândia – estabelecimentos que perderam clientela e comércio no bairro – e instalou 400 dependentes em acomodações de longo prazo. Também armou uma tenda nos limites do fluxo, o cambiante campo de colchões onde os dependentes circulam, penduraram uma faixa da operação Braços Abertos e instituiu um exército de assistentes sociais

Eles oferecem cuidados de saúde básica. Três refeições diárias. Um chuveiro. Ajuda para se registrar no conjunto de programas sociais que, em teoria, são feitos para auxiliar pessoas como essas, mas na prática são subutilizados pelos dependentes, em geral são eliminados pela falta de endereço permanente ou de documentos exigidos pela burocracia para inscrição. Se os usuários de drogas requisitarem tratamento, eles são levados para uma unidade de tratamento ambulatorial na mesma rua.

E eles estão empregados, por quatro horas diárias em serviços leves – como a varrição das calçadas, poda de jardins ou fazer café em repartições municipais.

O programa de São Paulo tem alguns elementos em comum com outras abordagens experimentais no tratamento da dependência de drogas e doenças mentais relacionadas. Um programa em Amsterdam emprega alcoólicos crônicos como varredores de rua e paga sobretudo com doses de cerveja; o programa Insite de Vancouver fornece para usuários de drogas injetáveis um lugar seguro para consumir a droga e os aproxima dos serviços de saúde e outros serviços sociais.

Ainda assim, muitas pessoas em São Paulo duvidam do Braços Abertos. Quando foi lançado, "eles olharam para a gente como se fôssemos malucos, dando casa e comida para zumbis, para pessoas que não querem mais nada da vida", diz a psicóloga Mirmila Musse, que trabalha no programa.

Ela e seus colegas ganharam financiamento da prefeitura com a promessa de que o programa se pagaria, apenas com a redução das internações em hospital – e que a criminalidade cairia. Há também uma pilha de estudos que demonstram que o melhor uso de recursos para ajudar pessoas com doenças mentais crônicas é moradia segura.

Mas a polícia acampou em todos os cantos da rua em torno do Braços Abertos; eles deixam os usuários em paz, mas a câmera montada num gigantesco poste filma todas as idas e vindas.

Há uma sensação de que eles estão apenas esperando para a coisa toda dar errado, assim eles podem voltar às prisões, Musse reconhece.

Uma saída --- È muito cedo para dizer se a aposta do prefeito Haddad vai dar certo.

Mas pessoas no programa parecem surpresas e encantadas em partes iguais com as mudanças em seus destinos; Roberto (ele usa apenas o primeiro nome) tem 37 anos e vive na rua desde os 11; é o típico perfil de um dependente aqui; imigrante pobre do nordeste. Ele usou crack por muito tempo e conseguiu segurar as pontas; ele tinha uma esposa e uma empresa de conserto de janelas. Mas acabou perdendo tudo e foi parar no fluxo.

Agora, no entanto, Roberto tem um apartamento para si. Ele ganha R$ 225 (U$ 100) por mês varrendo as ruas e está economizando para comprar ferramentas e recomeçar seu negócio de conserto de janelas. Recentemente, ficou noivo de uma mulher também participantes do Braços Abertos. Ambos estão em tratamento, Roberto diz que não está usando drogas.

"Sem o programa nada iria mudar – você usa o dia inteiro, a polícia te persegue e daí você fica bravo e faz coisas que não deveria e então você não consegue se livrar das drogas", ele diz. "Mas com esse emprego, eu tenho um horário, uma rotina – uma estrutura. Eu levanto de manhã tendo um lugar para ir. Tenho planos de logo sair daqui."

Muitas das 400 pessoas que aderiram ao Braços Abertos num dia típico consideram a moradia segura, o emprego e a sensação de voltar a um mundo que parecia fechado a grande mudança nas suas vidas.

"Uma grande parte não está usando, outros diminuíram de 20 para 5 pedras por dia – essa é uma diferença brutal na vida dessas pessoas em três meses", diz Cavalcanti. Setenta por cento daqueles a quem foi fornecia moradia começaram tratamento, ela afirma, e taxa de adesão é bastante superior em relação a modelos de tratamento anteriores.

E o programa fez uma grande diferença na sensação das ruas da Cracolândia. Ainda é surreal: à sombra de uma gigantesca estação de trem neocolonial, a rua está cheia de gente fumando crack. Muitos deles parecem derrotados. Há um fedor de urina velha e restos de comida nas calçadas. Mas não parece mais ameaçador. Os animados assistentes sociais andam com determinação sobre tudo isso e um recém empregado dependente cai na risada, exortando os colegas a serem mais caprichosos.

Benedikt Fischer, diretor do Centre for Applied Mental Health and Addictions da Universidade Simon Fraser University de Vancouver, estudou longamente o problema do crack no Brasil. Ele diz que não há dúvida de que dar moradia segura e trabalho vai "ajudar a estabilizá-los".

"Mas a dependência de crack é um problema de dependência complexo, que interfere no cérebro de maneira nociva e permanente. Eles terão recursos para lidar também com isso?"A epidemia de crack no Brasil é um "sintoma da extrema marginalização", ele diz, e o país não está resolvendo os problemas sociais que o alimentam.

Gomes vê essa sensação de marginalização todos os dias. Os clientes que sua organização de redução de danos tenta ajudar são muitas vezes ex-presidiários, que não conseguem trabalho, muitos vindos da área rural, poucos com alguma escolaridade quee foram totalmente deixados de fora do crescimento econômico rápido aqui em recente anos.

Esses cliente especulam se novo esforço para ajudá-los não estaria mais relacionado com retirá-los de uma área imobiliária nobre do que com uma preocupação genuína com seu bem-estar. "Todo mundo no programa se pergunta se ele não vai acabar logo após a Copa do Mundo", diz Gomes.

Por enquanto, ainda é uma prioridade da administração. O prefeito Haddad passa pelo local em um carro com insulfilm vez ou outra e às vezes supreende a todos descendo do carro para perguntar como anda o programa para dependentes e assistentes sociais, diz Musse.

Leon Garcia, diretor de prevenção da Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas do Ministério da Justiça em Brasília, tem observado o programa com interesse. Para ele, o programa reflete a evolução das atitudes brasileiras em relação às drogas nos últimos anos.

"Você tem de gerar reação social - um lugar para morar, lugar para trabalhar, a possibilidade de voltar a estudar. É uma oferta de tratamento, e é uma oferta de cidadania, e não se está dizendo que você tem que cumprir uma antes de ter a outra."

"Isso vai parar gradualmente o uso de crack nas ruas? Não podemos afirmar isso. Mas estamos à espera de outras cidades com programas que tenham a mesma abordagem para ver."

 

-MobilizaçãoBR

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