'Desvio de dinheiro é suprapartidário', afirma senador Jorge Viana

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BRASÍLIA - As falhas de comunicação no Palácio do Planalto, já apontadas tanto pela presidente Dilma Rousseff quanto pelo antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, preocupam o senador Jorge Viana (PT-AC). Para defender o governo e o PT dos efeitos da Operação Lava Jato, que descobriu desvios na Petrobrás que beneficiaram o partido e outras legendas, Viana vai reunir Lula e a bancada petista no Senado em um jantar para organizar a reação contra os adversários.

"Querem nos sentenciar politicamente. A oposição quer inviabilizar o governo da presidenta Dilma", afirmou Viana, que é vice-presidente do Senado. "Esse problema que envolve desvio de dinheiro é suprapartidário. Então, figurões do PSDB podem mudar de assento e sentar no tamborete dos réus. É bom que eles tenham cautela."

Antes do carnaval, o convidado para a conversa na casa de Viana foi o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil). "Chacrinha já dizia: quem não se comunica, se trumbica."

O governo vive uma crise e a perspectiva é de dias piores, quando a Procuradoria-Geral da República enviar ao Supremo Tribunal Federal a lista de parlamentares suspeitos de desvio de dinheiro na Petrobrás. Como o ex-presidente Lula ajudará na articulação com o Congresso?

Lula está preocupado com o PT. Vou organizar um jantar lá em casa com senadores do partido, nos próximos dias. Precisamos reagir. Querem nos sentenciar politicamente. A oposição quer inviabilizar o governo da presidenta Dilma. É uma ação dirigida e a origem está no PSDB, que já fala até em impeachment.

Mas esse argumento justifica o que aconteceu na Petrobrás?

Isso não justifica nada, mas é um fato. A instalação da CPI da Petrobrás é um açodamento. Agora, o PSDB tem que tomar cuidado. O que está ocorrendo na Petrobrás começou no governo Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. Então, figurões do PSDB e da oposição provavelmente estarão no banco dos réus (quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviar ao Supremo os inquéritos sobre a Operação Lava Jato). Eles podem mudar de assento e sentar no tamborete dos réus. É bom que tenham cautela.

O sr. já sabe quem será denunciado no Supremo?

Não. Esse problema todo, que envolve corrupção, desvio de dinheiro (para campanhas), é suprapartidário. Com isso, quero dizer que esse clima de confronto, de esticar a corda, poderia ser substituído por um ambiente de diálogo.

Em torno do quê?

Na questão da reforma política, por exemplo, com um mecanismo que evite fraude na atividade político-partidária.

O PT foi fundado, há 35 anos, com a bandeira do combate à corrupção, mas se tornou igual aos outros. O que o partido fará para tentar melhorar a imagem?

Nós, do PT, temos um dever de casa mais amplo porque o partido não pode conviver com a suspeição. Nos seus 35 anos, o PT precisa se reencontrar com o que está escrito na sua fundação, na sua história. O PT nasceu para ser uma referência na política e não pode perder isso de vista. O nosso governo tem um legado de realizações, de conquistas sociais. Não podemos perder justamente na política.

E o que pode ser feito?

Não podemos errar na comunicação e calar diante desse movimento, que tenta nos colocar no córner e não quer que o governo comece. Não falo de partir para o confronto, mas o PT e os movimentos sociais precisam ter uma reação forte. É um equívoco da oposição vincular tudo à eleição presidencial de 2018.

O sr. tem conversado muito com Lula. O que ele recomenda?

Ele cobra uma reação a esse clima de beligerância. Disse que, se fizermos o que tem de ser feito agora, e acertamos na comunicação, vamos superar isso e a presidenta Dilma fará um bom segundo mandato. O desafio é recuperar a economia e superar a questão política. Ele já disse para nós: 'Parem de inventar que eu falei coisas contra Dilma'. Quanto mais o PT e a presidenta ouvirem Lula, mais facilidade vamos ter de enfrentar a crise, pela experiência que ele tem. É preciso explicar às pessoas o momento de dificuldade pelo qual o País passa, onde podemos chegar com o segundo mandato, o que a população terá de ganho quando superarmos essa crise.

É a batalha da comunicação...

Pois é. Quando vier uma acusação, temos de traduzi-la. O grande comunicador Chacrinha já dizia: "Quem não se comunica, se trumbica". Temos a obrigação de dar respostas, explicar. Por exemplo, na questão das mudanças nos benefícios trabalhistas. Temos de dizer claramente que o governo não vai tirar direitos. O que se pretende é combater o mau uso desses direitos. Hoje há muita gente abusando, quadrilhas organizadas para burlar seguro-desemprego, abono salarial... Se isso for explicado para a sociedade, todo mundo vai defender.

Mas até o PT critica o ajuste... Temos de fazer um ajuste econômico para o País voltar a crescer. Até elogio a oposição quando ela diz que vai ajudar Joaquim Levy (ministro da Fazenda). Esse clima de enfrentamento não é bom para o País.

 

Por Vera Rosa/Estadão | Foto: Dida Sampaio/Estadão

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