Projeto de atendimento às vítimas da ditadura será ampliado

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A entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade sobre as violações a direitos humanos durante as ditaduras no Brasil não pôs um ponto final ao sofrimento de vítimas desses regimes. É preciso trabalhar os traumas, curar as feridas, com apoio e acolhimento. Essa é a função das Clínicas do Testemunho, criadas pela Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça.

Cerca de quatro mil pessoas já realizaram algum tipo de atividade em uma das cinco clínicas existentes no Brasil. Quatro delas, localizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, funcionam com recursos federais. Há uma em Recife, mantida pelo governo estadual.

Desde o final de 2012, quando o projeto teve início, o governo federal investiu R$ 2,174 bilhões.

O Ministério da Justiça abriu nova seleção para conveniadas e pretende expandir para oito este número, e ampliar a quantidade de estados participantes. O resultado deve ser publicado no final de setembro.

Os atendimentos terapêuticos são individuais e coletivos. Em grupo, os pacientes compartilham seus momentos de dor e também de resistência com outros que viveram situações semelhantes.

Entre as clínicas conveniadas está o Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo (SP). Na instituição, o atendimento coletivo recebeu o nome de Grupo de Reflexão e Testemunho. Cerca de 80 pessoas foram atendidas com psicoterapias.

Trabalho multidisciplinar - O projeto prevê também ações públicas para informar a sociedade sobre as consequências da ditadura militar e dos danos causados pelos regimes. Para a coordenadora do Instituto Sedes, Maria Cristina Ocariz, as conferências abertas evidenciam o desconhecimento da população sobre as ditaduras.

“Nas conversas públicas, fundamentalmente, a gente vê pessoas mais jovens interessadas e que se queixam de receberem pouca informação a esse respeito”, relatou.

“Quem se aproxima dessas ações são pessoas preocupadas com os direitos humanos, com a justiça social”, explica.

Algumas clínicas, como o Instituto Sedes, produzem conteúdos informativos, como documentários e publicações. A mais recente, lançada em 27 de agosto, na Semana da Anistia, apresenta as experiências de atendimento e relatos de vítimas que, com o auxílio de terapias, amenizam traumas e sofrimentos.

“O Grupo de Reflexão e Testemunho ajudou a dar transparência às situações vividas no tempo do cárcere, não todas — pois seria preciso um trabalho psíquico mais demorado e aprofundado—, mas muitas situações puderam retornar à superfície. Vê-las, percebê-las perto, senti-las, falar delas não foi completamente constrangedor. Antes, parecia”, contou no livro o professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, Carlos Botazzo.

Violência – Para Cristina Ocariz, uma das consequências evidentes dos períodos ditatoriais é a violência policial. “A lei de segurança nacional foi vitaminada na ditadura e a polícia militar continua trabalhando com esses parâmetros de tratar qualquer cidadão como inimigo, sobretudo se é pobre, preto e de periferia”, criticou.

A impunidade, para ela, é um dos grandes fomentadores da maneira como os policiais militares se portam. “A gente fez uma jornada interdisciplinar com a presença de uma criminologista para falar sobre a violência de Estado atual”, explicou.

O Instituto também realiza oficinas com profissionais de saúde mental da Prefeitura de São Paulo, da Defensoria e do Ministério Público. “Congregamos mais de cem profissionais para prepará-los para ficarem atentos às pessoas que passaram por traumas na ditadura”, explica.

As clínicas também firmaram convênios com as comissões estaduais da verdade para atender não só a vítimas e familiares, mas a profissionais que lidaram com o tema.

A Sedes e a Projetos Terapêuticos, situadas em São Paulo, ofertaram atendimento psicológico aos peritos do Grupo de Trabalho de Antropologia Forense responsáveis pelo trabalho de identificação de pessoas enterradas em vala clandestina no Cemitério do Perus, informou a coordenação das Clínicas do Testemunho.

“São jovens antropólogos forenses que vivem muitas angústias no trabalho cotidiano, principalmente no contato com os familiares, que aguardaram 40 anos pelos corpos. É bastante pesado”, detalhou Cristina.

Contexto – Após dois anos de trabalho, em dezembro de 2014, a Comissão Nacional da Verdade (http://www.cnv.gov.br/) finalizou o relatório final sobre as violações a direitos humanos pelo Estado, ocorridas entre 1946 e 1988, durante ditaduras militares.

Mais do que registro da história nacional, o documento reúne fotos, relatos e documentos que contam histórias individuais e reconhece a morte ou desaparecimento de mais de 400 pessoas pelo Estado.

“A minha luta, a luta que a ditadura fez de mim a mulher que ainda sou, UMA LUTADORA, UMA GUERREIRA, percebi que minha visão de mundo e filosofia de vida foram sedimentadas com dor, sofrimento e muita luta mesmo depois da abertura política”, contou a coordenadora de projetos em educação popular, Darcy Andozia, na publicação Violência de Estado na ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) Efeitos Psíquicos e Testemunhos Clínicos.

Fonte: Cristina Sena, da Agência PT de Notícias

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