LOCAL: São Paulo: Show de Sérgio Ricardo abre homenagens em memória de Alexandre Vannuchi

Compartilhar

 

Estudante assassinado em 1973 será declarado anistiado político durante ato na USP. Missa na Sé lembrará celebração feita 40 anos atrás

 
Por Rede Brasil Atual Sexta-feira, 15 de março de 2013

Sérgio Ricardo surge no palco como quem anda pela rua. Lá já estão os três jovens músicos que irão acompanhá-lo, entre eles dois de seus filhos, Marina e João. Com 80 anos – completará 81 em junho –, abre com Conversação de Paz, e ao terminar recorda "toda uma força existente neste país alguns anos atrás", quando "o Brasil parecia sorrir de orelha a orelha, com jovens absolutamente entregues à causa, acreditando na cidadania brasileira". O show de ontem (14) à noite no Centro Cultural São Paulo abriu as homenagens ao estudante Alexandre Vannuchi Leme, assassinado pela ditadura 40 anos atrás, em 17 de março de 1973, quando tinha 22 anos.
Hoje, um ato da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, a partir das 12h, no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), reconhecerá oficialmente Alexandre Vannuchi – estudante de Geologia e militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) – como anistiado político. Às 18h, missa na Catedral da Sé relembrará celebração feita no mesmo local em 30 de março de 1973, também, como hoje, uma sexta-feira, quando milhares de pessoas enfrentaram o bloqueio feito pelos órgãos de segurança em vários pontos da cidade e foram à igreja. Obviamente, nenhuma notícia foi publicada. A edição do dia seguinte do jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, trazia uma matéria na abertura de página 3 com o seguinte título: "Todo o país comemora o 9º aniversário da Revolução", em referência ao golpe de 1964.
Naquele dia, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, que fez a celebração, apresentou Sérgio Ricardo, que cantou uma música recém-composta: Calabouço, que lembrava o jovem Edson Luís, morto pela polícia durante um protesto no Rio de Janeiro, em 1968.
Meia dor meia alegria Cala a boca moço Nem rosa nem flor,botão Cala a boca moço Meio pavor meia euforia Cala a boca moço Meia cama meio caixão Cala a boca moço Da cana caiana eu canto Cala a boca moço Só o bagaço da canção Cala a boca moço Cala o peito cala o beiço Calabouço calabouço
Ontem à noite, o cantor reapresentou Calabouço, acompanhado do coral Luther King. O refrão teve a palavra "violeiro" trocada por "brasileiro": Olha o vazio nas almas/ Olha um brasileiro de alma vazia. Após a música, ele recebe do jornalista Sérgio Gomes um cartaz com a imagem de Vannuchi e o exibe à plateia.
Ainda no começo do show, Sérgio Ricardo anuncia uma canção "que poderia estar na cabeça do Alexandre quando ele optou por sua participação na luta". Começa a cantar Do Lago à Cachoeira.
Sei que é difícil mudar Quando o rumo é o de nossa vida E bem pior é se a gente Vê que não tem mais saída
Saí buscando não sei se o vento Ou se o rumor das ondas Falando nos caminhos Brotou em minhas mãos Fonte nascente e se avolumou
Sem que eu percebesse Ocupou todo o espaço E o nó desatou do laço Quando me vi sem amarras Saí agitando os braços
Virei o rio que rompe a barragem Que sai lambendo a terra A mata o leito a margem Só sei que lá fui eu Do lago à cachoeira

A psicanalista Maria Auxiliadora Arantes, a Dodora, militante da Ação Popular presa no sertão de Alagoas pouco depois do AI-5, em 1968, leu um texto em homenagem a Vannuchi antes do show. Lembrou que em 12 de março de 1973 o estudante se despediu dos pais em Sorocaba, no interior paulista, dizendo: "Volto no próximo domingo para o almoço". No dia 20, eles receberam um telefonema: "O Alexandre está aqui no Dops, venham buscá-lo". Não estava lá, não estava em lugar algum. O pai soube da morte ao ler uma notícia no jornal, que apontava o rapaz como vítima de atropelamento. Alexandre, cuja morte ocorrera no dia 17, foi enterrado no Cemitério de Perus como indigente em cova rasa e com cal, para acelerar a decomposição do corpo. A família só conseguiu enterrá-lo em Sorocaba dez anos depois, em 1983.
Sérgio Ricardo canta ainda, entre outras, Enquanto a Tristeza não Vem ("Canta Canta/ Nasceu uma rosa/ Na favela"), Contra a Maré ("Quem vai pro fundo/ Tem é que agitar o braço/ Tem é que apertar o passo/ Tem é que remar contra a maré"), Esse Mundo é Meu e a música principal da trilha do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. No bis, a pedidos, Zelão.

 
 

Últimos artigos

Por Rui Falcão: Uma semana decisiva que culmina dia 28
segunda, 24 abril 2017, 18:14
    O PT apoia e participa da greve geral nesta sexta-feira, e sua Executiva Nacional estará em Curitiba dia 2 de maio, em homenagem à festa da democracia do dia 3   Paulo Pinto/Agência PT Ato preparatório para a greve geral do... Leia Mais
Por Rui Falcão: A necessidade de derrubar Temer e eleger Lula
terça, 18 abril 2017, 15:08
  Nosso caminho é aumentar as mobilizações, repelir o canto de sereia dos acordos por cima, defender os direitos e lutar pela antecipação das eleições   A impopularidade e o descrédito crescentes de Temer & seus asseclas; a... Leia Mais
Simão Pedro Chiovetti: A gestão Doria – vender SP
quarta, 12 abril 2017, 16:37
  Doria em menos de 100 dias demonstrou que não tem apego algum por SP e muito menos pelos paulistanos da periferia e classe média   Próximo de completar apenas 100 dias à frente da Prefeitura de SP, já é possível perceber que as... Leia Mais
Por Vitor Marques: 100 dias de governo João Doria: a São Paulo virtual e a São Paulo real
quarta, 12 abril 2017, 15:06
  Empossados os novos governos, via de regra, é esperado que a população tenha uma receptividade e uma tolerância maior com aqueles que estão iniciando a nova gestão. Este período é conhecido no vocabulário político como “lua... Leia Mais
Por Emídio de Souza: Algo está errado
terça, 11 abril 2017, 21:35
  Algo está errado. Contrariando a tradição da política brasileira, um partido chama seus filiados a debater seu futuro e escolher seus dirigentes. Mais de 250 mil atendem ao chamado e, sem serem obrigados, vão às urnas em quase 4... Leia Mais