Ato de 1º de Maio é marco contra quem deseja volta aos tempos de "perversidade"

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Segundo dirigente da CUT, manifestações não unirão todas as entidades por divergências eleitorais. Tucano Aécio Neves é identificado com projeto que retirava direitos trabalhistas

 
Por Vitor Nuzzi, da Rede Brasil Atual

 

O ato conjunto de 1º de Maio de três centrais sindicais, nesta quinta-feira, representa uma disputa de projetos e particularmente a defesa de direitos trabalhistas, que estariam sob ameaça dependendo do vitorioso na eleição presidencial de outubro. Esta avaliação foi feita hoje (29), quando dirigentes de CSB, CTB e CUT se reuniram para falar da manifestação que será realizada no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo. A Força Sindical fará seu ato na Praça Campo de Bagatalle, zona norte da capital paulista. Unidas em torno da chamada agenda sindical, as centrais se dividem no 1º de Maio por divergências de fundo eleitoral.

"Este 1º de Maio está batizado pela disputa do projeto econômico. Só não acabará o salário mínimo se a Dilma for reeleita", pontua o presidente da CSB, Antônio Neto, referindo-se ao programa de valorização do salário mínimo, negociado ainda no governo Lula e implementado desde então.

O secretário de Relações Internacionais da CUT, João Felício, compara a situação brasileira com a da Europa, atormentada por políticas de austeridade implementadas por parte dos governos, que impõem perdas sociais aos trabalhadores. "Estamos vivendo uma era da perversidade", define. Felício vê riscos no Brasil. "Não queremos voltar ao passado, quando o movimento sindical foi colocado numa trincheira, apenas para não perder direitos. Estamos num processo de disputa da sociedade brasileira."

O dirigente lembra, especificamente, de projeto do governo Fernando Henrique Cardoso, na chamada "flexibilização" da CLT, que permitia a acordos coletivos prevaleceram sobre a legislação. O projeto chegou a ser aprovado na Câmara dos Deputados, mas parou no Senado e terminou arquivado em 2003, já no governo Lula. "O presidente da Câmara (em 2002, quando o projeto passou) era Aécio Neves", lembra Felício, citando o pré-candidato do PSDB à Presidência da República.

Sem inimigos

"Vamos lembrar na campanha eleitoral o papel dele", acrescenta Felício. "A cabeça dele é a cabeça do neoliberal", qualifica. O senador mineiro não foi convidado para o 1º de Maio das três centrais (CTB, CSB e CUT). "Não é por uma questão partidária", ressalva o dirigente da CUT, mas por seu papel na aprovação do projeto de 2002. "Não queremos dormir com o inimigo." Aécio deverá estar presente ao ato da Força.

As diferentes posições dos sindicalistas sobre a sucessão de Dilma impediram uma unificação das manifestações, avalia o presidente da CUT de São Paulo, Adi dos Santos Lima. "Houve um esforço muito grande de todas as centrais para fazer um 1º de Maio unificado", afirmou. No caso da Força, a divergência se dá porque a central levará pré-candidatos com projetos diferentes dos defendidos pela CUT, ao lado de CTB e CSB. "Não vamos jogar pedra em ninguém. O que não deu unidade foi a questão eleitoral."

As principais centrais do país seguem coesas em atividades que envolvam a chamada agenda trabalhista, discutida há anos com o governo e com o Congresso. Em 9 de abril, fizeram uma marcha pelo atendimento de suas reivindicações e hoje, por exemplo, estão em Brasília para uma reunião com o presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN).
"O problema dessas bandeiras (trabalhistas) está mais no Congresso do que no conjunto do governo", diz Neto. "Não negamos os aspectos positivos do ciclo de mudanças iniciado por Lula e seguido por Dilma", acrescenta o presidente da CTB, Adilson Araújo, que identifica, no entanto, "dívida" do Executivo com o movimento sindical em relação à pauta, que inclui redução da jornada de trabalho e fim do fator previdenciário, entre outros itens.

Eleições

No processo eleitoral, os dirigentes já vêm manifestando posições divergentes. CUT, CTB e CSB fazem críticas ao que chamam de falta de diálogo do governo, mas seus comandos manifestam-se majoritariamente pela reeleição de Dilma. No caso da CTB, seu presidente, Adilson Araújo, do PCdoB, considera a manutenção da presidenta no Palácio do Planalto "a quarta vitória do povo brasileiro", contando as duas eleições de Lula. Mas há dirigentes da central também vinculados ao PSB, do pré-candidato Eduardo Campos.

A CGTB, de Ubiraci Dantas de Oliveira, o Bira, deixou de apoiar o governo, mas seu presidente admitiria apoio no caso de o candidato ser Lula. A Força já se posicionou no campo da oposição. Na UGT, o presidente da entidade, Ricardo Patah, apoia Dilma. Ele deverá participar de diferentes atos relativos ao Dia do Trabalho. Ontem e hoje, a UGT organizou um seminário sobre sindicalismo em parceria com o Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para os dirigentes, tão importante quanto a eleição presidencial é a renovação de cadeiras no Parlamento. "O grande problema da classe trabalhadora é a correlação de forças no Congresso", observa Antônio Neto, da CSB. "A correlação é desfavorável", ratifica João Felício, da CUT.

Uma reforma na área de comunicação é outro foco do 1º de Maio deste ano. Para Adi, o país tem uma "democracia incompleta" à medida que existe um monopólio no setor. "No dia da marcha (em 9 de abril), colocamos 50 mil nas ruas e um jornal disse que tinha 600 pessoas. Esse jornalismo não é sério", criticou. Ele enfatizou que as mudanças não apontam para restrições, mas para a ampliação dos veículos de comunicação, para dar voz a mais setores sociais.

Felício chamou a atenção para o número de articulistas e alguns pré-candidatos que apontam, segundo ele, para um possível retorno de propostas conservadoras, com retirada de direitos, em nome da competitividade. "É impressionante como o neoliberalismo está presente na imprensa brasileira."

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