Manifestação pela falta de água em São Paulo foi marcada por repressão policial

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O saldo é de dois manifestantes detidos e 200 pessoas envelopadas pela Força Tática no vão livre do MASP.

 


Organizado por integrantes do movimento Base Popular, que segundo eles é um grupo anarquista dedicado ao autonomismo e à difusão do poder popular horizontal e anticapitalista, em bairros, locais de trabalho e escolas, o protesto intitulado como ‘Lute pela Água’ realizado nesta quarta-feira (11), foi bem esvaziado. A concentração ocorreu no vão livre do MASP, a partir das 17h, e pelo menos até às 19h, só compareceram ao local, cerca de 200 manifestantes do Lute pela Água, MPL, PSOL e Território Livre.

Os integrantes do protesto não estabeleceram nenhum diálogo com o comando do efetivo policial presente para definir trajeto e justificaram a atitude com a metodologia horizontal do grupo, ou seja, sem lideranças nomeadas.
Isso dificultou um ‘acordo’ dos manifestantes com o comandante da operação quanto ao itinerário, ele reclamou da atitude do grupo. “Eu simplesmente gostaria que algum organizador me informasse para qual local pretendem ir, para nós fazermos o acompanhamento do protesto e o balizamento do trânsito e assegurar todo mundo, será que isso é tão difícil?” declarou o major Romildo Xavier.

Conversamos também com Rafaela, uma jovem de 29 anos, estudante de história, organizadora do protesto e integrante do movimento Base Popular, que compõe o ‘Lute pela Água’. Ela nos informou que reside na Moóca e que lá, também está faltando água diariamente. Quando questionada sobre o fato de o grupo ter como foco central a pauta da crise da água, mas não deixar de “colocar na conta” do prefeito Fernando Haddad essa situação, ela justificou: “Nossa questão é contra um rechaçamento de um Estado burguês que está colocado e aos partidos políticos. O ato é autônomo, as pessoas constroem e nunca vamos rechaçar um grito que vem do povo. A gente preza pela horizontalidade. Quando colocamos Alckmin e PT no mesmo patamar temos legitimidade para fazer isso, fomos para as ruas em 2014, fizemos panfletagem, falamos com as periferias e puxamos um boicote ao que chamamos de “farsa eleitoral”, mas o que estamos fazendo hoje aqui é uma denúncia contra o Estado. Para nós, os governos não tem diferença, pois todos vão atacar o povo por que querem defender o capital e desta forma, são nossos inimigos”.

Com esse depoimento, fica clara uma confusão e desorganização de ideias do movimento. Fato que já vimos anteriormente em manifestações contra o aumento da tarifa, por exemplo. Falta formação política e foco em pautas centrais. A crítica construtiva é sempre muito positiva, mas deve ser embasada em fatos reais, responsabilidades, instâncias e pleno diálogo.



Envelopamento fere o direito à liberdade de manifestação

Por volta das 19h15, uma espécie de cordão formado pela Força Tática e PM’s invadiu o vão livre do MASP em direção aos manifestantes, o que deu início a um primeiro tumulto. Nessa ação truculenta dois manifestantes foram presos e encaminhados ao 78º DP, entre eles, Vítor Araújo, jovem que perdeu o olho direito em outro protesto no 7 de setembro de 2013, vítima de estilhaços de bomba lançada pelo efetivo policial.

A equipe do Linha Direta questionou o comando policial sobre a técnica de envelopamento* da Força Tática. “No início da concentração, nós pedimos a alguns manifestantes que um líder ou um organizador se apresentasse e informasse o itinerário, se isso não acontece, eu não posso liberar o pessoal de dentro do vão, por que a Paulista está em obras, temos o trânsito do horário de volta para casa, temos oito hospitais que ficam nas imediações. Vamos deixar duas faixas para que eles possam caminhar a vontade, para onde quiserem ir, faremos o acompanhamento. Mas não podem sair daqui em grupo sem informar isso, individualmente podem”.

Informamos ao major que vimos jornalistas tentando sair do cerco individualmente, e que mesmo mostrando suas identificações não eram liberados. Ele desconversou dizendo somente que o procedimento estava errado.
Logo adiante, presenciamos o Padre Júlio Lancelotti, conhecido defensor dos moradores de rua de São Paulo preso no cerco policial. “Se eu não fosse um pouco inteligente, na hora que aconteceu o envelopamento, eu teria me machucado”. Declarou o padre.

Depois de muita pressão por parte da imprensa presente e de alguns manifestantes, a passeata saiu do vão livre do MASP, passou pelo prédio da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos, na rua Bela Cintra, no reservatório da Sabesp da rua da Consolação e pelo Parque Augusta. Nos três locais foram realizados jograis, que reivindicavam, punição da atual gestão estadual e da Sabesp, distribuição igualitária da água e restrição dos recursos hídricos para o agronegócio e a indústria.

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*Envelopamento ou “Caldeirão de Hamburgo”, tática conhecida da polícia alemã para encurralar manifestantes. Desarmados e sem apresentar qualquer tipo de perigo, os poucos militantes que estavam presentes passaram mais de uma hora na iminência de serem atacados por bombas ou balas de borracha diante da constante ameaça dos policiais.

 

 

Por Katia Passos, Imprensa PT-SP

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