Da favela para a Prefeitura

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Pelas vielas que percorrem a porta das casas dos cerca de 700 moradores da favela Monte Azul, na zona sul de São Paulo, todos conhecem Claudinho. Negro e morador da comunidade há 35 anos, é ele a nova arma do prefeito Fernando Haddad para tentar cavar espaço entre os jovens na periferia da cidade.

Neste mês, Cláudio Aparecido da Silva será nomeado o mais novo responsável pela Coordenadoria Especial de Políticas para a Juventude da cidade. Substitui Gabriel Medina, promovido a secretário Nacional da Juventude, na função de planejar ações e projetos que atendam aos mais jovens. Seu objetivo é claro: levar a Prefeitura do intelectual Haddad, que peca na conexão com os mais pobres, para dentro das áreas mais excluídas da cidade.

Um entre sete filhos de dona Mariana, uma metalúrgica aposentada de 67 anos, Claudinho, 38, conhece bem os caminhos da exclusão. Aos três, foi mandado pela mãe para o Espírito Santo, onde vivia a avó. Recém-separada, dona Mariana, então grávida do último filho, não tinha como trabalhar e cuidar das crianças. A função coube à avó. Aos nove, depois de uma briga familiar, ele decidiu fugir de casa. Viveu nas ruas por quase dois anos até ser detido por desacatar um policial que o repreendeu por pedir esmolas.

Claudinho foi mandado para a antiga Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem), onde ficou por seis meses, até que dona Mariana foi intimada a buscá-lo e o levou para viver na Monte Azul. Aos dez, ele se aproximou da mãe e pediu um tênis Adidas. Ouviu que o acessório não caberia no orçamento da família. Decidiu, então, construir uma caixa de madeira para engraxar sapatos pelas ruas. “Em um mês comprou o tênis”, lembra a mãe, orgulhosa.

Trabalhou na função por oito anos, período em que descobriu o que era racismo. “Um dia, estava engraxando o sapato de um investigador, numa delegacia. Ele brincou comigo, dizendo que eu não estava fazendo o trabalho direito. Neste momento, chegou uma pessoa e disse: ‘nem para isso essa raça serve, né?’”, lembra ele.

Durante a adolescência, passou a militar no movimento negro e a ter contato com grupos de hip hop – trabalhou como assessor do rapper Dexter, um dos nomes do 509-E, grupo formado dentro do presídio do Carandiru. Também se filiou ao Partido dos Trabalhadores. Na disputa interna pela vaga de Medina, aberta desde janeiro deste ano, Claudinho recebeu o apoio de nomes como Mano Brown e Leci Brandão. “Ele tem a tatuagem da luta social. Não esconde a identidade”, disse ao EL PAÍS a sambista e deputada estadual pelo Partido Comunista do Brasil. “Sempre foi incisivo e leal com suas ideias.”

Nos próximos meses, Claudinho pretende lotar os espaços periféricos com cultura e discussão. Criar uma espécie de “pacto das quebradas”, diz, um projeto para que a “juventude periférica pense a quebrada que quer para daqui a 15, 20 anos”, entusiasma-se. "Tem um monte de gente aqui que ninguém sabe o que está pensando.”

Também pretende construir pontes que colocarão o prefeito em contato com a comunidade. No primeiro desses movimentos, já trabalhou pela ida de Haddad ao Capão Redondo para discutir com os moradores o aumento da violência na região, explica, a poucos metros do palco da última morte do bairro, ocorrida uma semana antes: dois motoqueiros passaram atirando e mataram um rapaz, que trabalhava em uma lojinha montada na garagem de casa, com sete tiros. “Aqui morre gente toda hora, é corriqueiro. Todo mundo é alvo”, diz. “Precisamos desenvolver uma estratégia de mobilização popular muito forte. Os movimentos periféricos precisam entender que a Prefeitura está mais próxima”, diz.

Algo que se torna ainda mais essencial com a possível entrada da ex-prefeita petista Marta Suplicy, aclamada entre os mais pobres, na corrida eleitoral pela Prefeitura, no ano que vem. Haddad, cuja popularidade oscila desde que assumiu a cidade, amarga uma forte rejeição também entre os mais pobres, o principal nicho de eleitores do PT: 42% consideram seu Governo ruim ou péssimo, uma taxa não muito distante da observada entre os que ganham entre dois e dez salários mínimos. Entre os jovens (16 a 24 anos), apenas 26% consideram seu Governo bom ou ótimo –uma aprovação bem distante dos 47% registrados antes dos protestos de junho de 2013.

Fonte: El País

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