​VICE Entrevista: Fernando Haddad

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Fernando Haddad sai de seu gabinete abatido. Com o nariz irritado e uma cara de noite mal dormida, ele atribui o desconforto à rinite. "Tive de tirar os ternos de inverno do armário e aí já viu, né?". A doença alérgica do prefeito de São Paulo, que constantemente pauta jornalistas e já atrapalhou seus compromissos da agenda pública, é responsável pela retirada de tapetes, cortinas e por outras mudanças no ambiente de trabalho.

Na ante-sala do quinto andar da sede administrativa de São Paulo, Haddad recebe a VICE para um papo de uma hora. Sem paletó e cercado por dois assessores, ele entorna a xícara de café preto, dispensa a taça de água servida pelo mordomo, cita Karl Marx e Gilberto Gil. Durante a conversa, falamos sobre manifestações, a visita do MPL até sua residência, Cracolândia, pixo, fluxos de funk, a presença do Exército no combate à dengue, lança-perfume, imigrantes, reeleição e outros rolês. Leia os melhores trechos da entrevista abaixo.

VICE: Tinha um brother nosso na Praça Roosevelt com a molecada do skate outro dia. Ele comentou que você colou e chamou os moleques pra trocar ideia e saber o que eles queriam, quais eram os interesses deles. Você costuma fazer isso sempre? Costuma fazer isso em regiões mais periféricas?
Fernando Haddad: Acho que, até por formação, gosto de ouvir. Pra você dar uma aula, você tem de ouvir, entre aspas, muito. Você tem de ler muito. Ler é uma forma de ouvir o que os outros estão falando. Essa percepção das pessoas do dia a dia é muito melhor do que em geral se imagina. Vou citar um exemplo: tinha um estrangulamento de trânsito lá em cima na M'boi Mirim - Jardim Capela, o pessoal chama ali. Eu fui visitar a área com os técnicos da CET, e eles estavam descrentes de que a solução pedida pela comunidade, que era a duplicação da ponte, daria resultado. O que foi pedido pela comunidade resolveu o problema para surpresa dos próprios técnicos quando voltaram lá. O que eu quero dizer com isso é que essas soluções que vêm da própria comunidade no caso da cidade são um conhecimento muito precioso. A pessoa tá morando ali há 15, 20 anos, tá olhando para aquele problema há muitos anos. Então, quando ela faz uma sugestão, você pode ter certeza de que a pista é boa. Quando eu tô na rua, gosto de ouvir as pessoas criticando, recomendando. Me dá prazer.

A VICE cobre muitas manifestações. Desde 2011, acompanhamos o MPL (Movimento Passe Livre). Diversas vezes, viemos até a Prefeitura junto com algum ato deles. Em fevereiro deste ano, o MPL celebrou um casamento de um boneco do prefeito Fernando Haddad e uma noiva catraca. No outro dia, eles foram até a sua casa, no bairro do Paraíso. Você ou sua família estava em casa nesse dia ou não?
Eu não estava. Estava na Prefeitura ainda. Acho que, quando você mistura o público com o privado em relação a pessoas eleitas e democráticas, que têm uma trajetória democrática, é uma confusão que me lembra o pior da tradição política. Uma confusão que não leva a um bom lugar. Eu não fui o primeiro prefeito hostilizado dessa maneira por eles, mas não recomendo para as pessoas progressistas agirem dessa maneira contra nenhum político. Eu acho errado, mas penso que eles vêm de uma tradição política complicada, uma visão antiestatal. Pra minha formação de esquerda democrática, eu vejo com alguma preocupação a forma como eles se organizam, se manifestam, embora reconheça a legitimidade da reivindicação de modicidade tarifária. Acho uma bela causa e a defendi antes de conhecê-los; então, pra mim, não é novidade.

Mas, quando você está no gabinete e vê uma manifestação aqui na frente da Prefeitura, não se intimida?
Ao contrário. Já desci em manifestação e subi no caminhão pra conversar com as pessoas. Tem registro fotográfico disso. Quando fui Ministro da Educação, recebi mais manifestações do que aqui. Visitei dezenas de universidades públicas e privadas. Outro dia, eu fui à PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), no Tucarena. Tinha 400, 500 pessoas lá. Fui lá como cidadão discutir a cidade com alunos. Não tenho lembrança de um prefeito que tenha topado esse tipo de atividade. Dou aula na USP (Universidade de São Paulo) sendo prefeito, fui a outras escolas da cidade sem nenhum tipo de aparato, sem nenhum tipo de cerimônia, de protocolo.

Mas essa coisa de irem até a sua casa não assusta um pouco? De pensar na sua família, na sua mulher?
Não assusta. O problema não é de assustar ou não assustar, até porque incomoda muito mais a vizinhança do que a mim. Eu tô aqui, tô disponível. É falta de cultura política de quem pratica esse tipo de ação. Outros prefeitos já pagaram esse preço. Me sinto muito à vontade de dizer, até como professor de ciência política: isso não é uma boa tradição, não é uma boa prática.

Sentimos que, neste ano, o MPL bateu muito mais nas questões da Prefeitura. Novamente, eles fizeram vários atos pela cidade buscando a revogação do aumento da tarifa. E, como isso não aconteceu, o movimento criou novas estratégias mais focadas na periferia – onde eles sempre estiveram. Como funciona o canal de diálogo entre Prefeitura e Movimento Passe Livre? Eles solicitam reunião ou coisa do tipo?
Não, não solicitam. Tem uma coisa um pouco de espetáculo, da política como espetáculo. Outro dia, eu li um artigo muito bom de um colega da sociologia, o José de Souza Martins, falando da política como espetáculo, [de] como essa visão tá prosperando, talvez estimulada pelas redes sociais. Essa coisa mais performática. Por exemplo: o que aconteceu na sala de aula [moradores do Extremo Sul interromperam uma aula do prefeito para pedir transporte público]. Eu não tive nenhum problema com aquilo. Invadiram a sala e fizeram um protesto por linhas em Marsilac. Conheço o drama de Marsilac em relação às linhas de ônibus, só que tem um problema ambiental. Como sou formado pelo pensamento dialético, tenho dificuldade em dialogar com quem pensa de forma binária. Respeito quem pensa de forma binária, mas a minha formação não é essa. Tô desde os 18 anos na universidade e aprendi de outra maneira. Você não pode fazer a questão ambiental colidir com a questão social. É errado. Tem uma frase clássica d' O Capital que diz: "Direito contra direito, quem decide é a violência". Frase clássica do Marx. No caso, ele falava da jornada de trabalho, mas eu tô falando de outra coisa: tô falando de direitos que não são antagonismos de classe, são perspectivas igualmente meritórias. Um pouco como "A Novidade", do Gil. A sereia é vista pelos poetas e pelos famintos de maneiras diferentes. Existe isso na cidade. Tem muita sereia na cidade, né? E, pra preservar a sereia, você tem de olhar pros dois lados, [o] dos poetas e dos famintos. Qual a calibragem adequada pra que você garanta o direito ao transporte sem estimular ocupações onde haverá muito brevemente uma reserva indígena? Não tô falando nem da APA (Área de Proteção Ambiental), tô falando da reserva indígena. Você tem de realmente se debruçar sobre isso com um pouco de sabedoria; senão, você vai, pra atender um direito legítimo, comprometer outro igualmente legítimo.

Quando fomos a Marsilac, ouvimos relatos de pessoas que andam 15 quilômetros a pé pra conseguir ir ao hospital, ao mercado. Participamos de uma linha popular que eles instalaram no ano passado e ouvimos muita gente. Fomos dentro do ônibus com a galera, com trabalhador, criança, e as pessoas pareciam um pouco desesperadas por transporte. Existem projetos de se implementar linhas lá?
Imagina, num limite, se você levasse uma estação de metrô pra Marsilac? O que ia acontecer? Eu tô levando o raciocínio para o paroxismo pra você entender a delicadeza da situação. Nós vamos discutir com a comunidade e vamos levar as autoridades ambientais pra que consigamos modular isso de maneira adequada. Essa é a típica situação em que você tem de buscar um entendimento para que os dois lados vençam, e não um lado só. Se um lado só vencer, aconteceu alguma coisa errada, porque os dois lados são legítimos.

Recentemente, fizemos duas reportagens sobre casos de meninas que, após terem sido expostas na internet, tiveram de mudar de escola, e isso gerou uma ruptura muito grande na rotina dessas adolescentes. Como a Prefeitura olha para o bullying dentro das escolas? Há algum trabalho, alguma ação preventiva?
Esses casos são...

São em escolas estaduais, mas a gente sabe que esse tipo de ação é comum em qualquer escola. Agora, com o WhatsApp e outros recursos tecnológicos, é muito fácil de se espalhar.
Sim.

Esse tipo de exposição tem se tornado uma prática muito comum. No caso das escolas da rede estadual, nós identificamos uma falta de apoio e de suporte muito grande, o que foi bem problemático pras famílias, como a realocação para outros colégios. Ao mesmo tempo, identificamos que isso é uma coisa generalizada, que não é uma questão da escola em si. Existem montagens humilhando essas meninas, que são menores, com uma série de apelidos. Passam por Whatsapp, YouTube pra caramba. A nossa questão é: isso já foi identificado pela Prefeitura? É uma coisa para a qual vocês estão atentos ou não?
Eu acredito que os educadores sejam todos muito atentos em relação a isso. Como a Prefeitura não tem Ensino Médio – nossa matrícula de Ensino Médio é minúscula –, eu entendo que, até o final Fundamental, você tem uma governança melhor. Você tá falando de adolescentes até 14, 15 anos.

Um desses casos é com uma adolescente de 13 anos.
Que estava no Ensino Fundamental, não Médio? De escola estadual?

Isso.
Olha, muito sinceramente, não me chegaram relatos. Eu visito muita escola. Agora mesmo, estou indo a uma, e não me chegam relatos dessa natureza. Posso até consultar o secretário, mas acho que me chegaria com mais frequência se fosse muito recorrente. Agora, eu entendo, independentemente do meu conhecimento, que a internet e as redes sociais colocam um desafio enorme pra todos nós, porque [elas] têm um lado libertário de tudo isso, mas todo espaço de liberdade envolve desafios importantes. A gente precisa acompanhar isso, mas, como é uma coisa sem volta, nós vamos ter de aprender a lidar. Tem uma dimensão aí que precisa ser mais bem estudada, porque a internet é muito capilar e atomizada. As pessoas participam como indivíduos e sem os filtros institucionais que foram criados ao longo de dois séculos com a democracia representativa. O associativismo espontâneo da população já cria um monte de filtros que te educam pra vida em sociedade: você aprende com esses filtros a partir da experiência de quem chegou antes. A internet, de certa maneira, derruba isso. Ela se expõe de uma maneira não mediada, não educada no sentido estrito da palavra. Aquela opinião dela não foi lapidada, não foi submetida a crítica. Isso tudo destampou um processo num certo sentido até regressivo. Você vê nos comentários: tem muita regressividade na rede social, mas é pela dimensão não social dela, é pela dimensão atomizada dela. O processo de individuação é tão importante quanto o processo de socialização. A gente às vezes confunde essas duas coisas, e são coisas muito diferentes.

Logo, qual seria um meio pra se conseguir chegar a um parâmetro um pouco melhor? É regulamentação ou discussão da sociedade civil?
Definitivamente, não é de regulamentação. Nós vamos ter de aprender uma forma para que essa interação livre eduque. O que eu vejo hoje é que há uma incompreensão muito grande dos valores democráticos. Como se explica? Você tem mais expressão e tem um conflito. Você tem mais participação, mais inclusão digital e colisão disso com os valores democráticos? Parece uma contradição, mas não é. Democracia é uma coisa muito mais profunda do que isso. Tem uma dimensão de valores, uma dimensão de respeito a minorias políticas que precisam ser observadas. O que eu vejo hoje na internet e nessa rede que é chamada de social, mas tem essa dimensão que de social nada tem, é esse déficit de como, na verdade, você, por meio da participação, acaba educando e se educando pela interação.

Costumamos ir muito ao bairro do Glicério, na Paróquia Nossa Senhora da Paz, que mantém vários núcleos pra acolher imigrantes. Para democratizar a nossa pauta de perguntas hoje, pedimos ao padre Paolo Parisi, responsável pela igreja e ativista na causa dos imigrantes, uma questão direcionada a você. Ele quer saber como a Prefeitura pretende atender essa demanda crescente.
Essa foi a primeira administração que criou um centro do imigrante na história da cidade. Isso já é um passo importante na direção do que a pergunta sugere. No caso dos haitianos, tem havido, em geral, boa comunicação entre nós, o governo do Acre e o governo federal. Às vezes, falha. Porque, quando somos avisados com alguma antecedência, nos preparamos. Até porque a maioria dos haitianos não fica em São Paulo. As empresas acabam contratando pra atividades em outras cidades. Aqui é uma espécie de ponto de parada onde as pessoas buscam oportunidades de trabalho. Os haitianos são trabalhadores valorizados. Pelos relatos que ouvi dos empregadores, são pessoas muito reputadas, procuradas. São Paulo é terra de receber imigrante; então, nós estamos aqui pra atender. Às vezes, precisamos reconhecer que a coordenação não é perfeita. No ano passado, aconteceu uma falta de comunicação que ocasionou um problema grande ali na região do Glicério. Isso foi corrigido, e vamos ver esse novo desafio que temos pela frente. São Paulo pode se preparar pra ajudar. Nós não temos nenhuma dificuldade em ajudar. Muito menos os imigrantes, porque somos uma terra de imigrantes.

No dia 5 de maio, demos uma matéria falando sobre dengue e trouxemos uma pergunta do Lucas Fernandes, um dos nossos entrevistados nessa pauta. Ele é morador da Brasilândia. Fomos até a casa dele no bairro, onde há nove pessoas infectadas com a doença e um caso de dengue hemorrágica. Ele fez a seguinte pergunta: por que a Prefeitura tirou a tenda da Brasilândia?
Porque o gestor local entendeu que a demanda pela tenda tinha se esgotado. Nós estamos numa época de queda de temperatura, isso mata o mosquito, e o número de casos de dengue diminuiu dramaticamente. Agora, convenhamos, o Estado tá numa situação que, tirando a capital, superou mil casos por 100 mil habitantes, e nós, na semana passada, atingimos 300. Nós estamos com um quarto dos casos. Quer dizer, nós não somos uma ilha – nós somos a capital desse Estado que tá com uma epidemia quatro vezes superior à nossa. O trabalho que foi feito pra [se] tentar, na medida do possível - acho que nem é o caso de usar a palavra, mas... –, isolar o problema foi um trabalho extraordinário das equipes de saúde e da população. Porque a população atendeu aos nossos apelos. Nós fomos pra televisão, explicamos que não podia reservar água, né? Aquela região toda tá sem água. Então, as pessoas tão reservando água porque precisam, mas [elas] têm de fazer isso adequadamente, tampando o reservatório. Foi feito um trabalho, houve uma resposta efetiva da população e eu atribuo à população e a sua mobilização indicadores muito melhores do que o nosso entorno.

Nessa mesma reportagem, acompanhamos o trabalho do Exército junto com os agentes de zoonoses. Andamos ali pelo bairro do Limão, e a pergunta é a seguinte: o relatório que vocês soltaram agora no dia 7 de maio apresenta a Brasilândia no topo da lista de bairros com dengue. E, agora, pelo que saiu na imprensa, os próximos bairros que seriam atendidos são Freguesia do Ó e Pirituba, que estão em quarto e quinto lugar. Qual foi o critério pra se escolher esses próximos bairros de ação do Exército com os agentes de Zoonoses?
Eu não saberia te responder, mas a diretriz que foi dada por mim foi de utilizar o Exército onde é mais difícil para as equipes convencer[em] os moradores a abrir suas portas. A diretriz foi essa. Não sei se houve observância. Mas a diretriz foi essa. Em algumas localidades, as equipes estavam com muita dificuldade em entrar nas casas por questões relativas à segurança. A pessoa fica com medo de abrir sua residência para uma pessoa que ela não conhece. A gente imaginou que uma pessoa paramentada pudesse dar um suporte pra essa ação. Os relatos que eu tive são de que [isso] funcionou. De que a presença do militar deu pro morador uma segurança maior pra ele abrir sua residência. A diretriz foi essa. Agora, o caso é ver na Saúde.

Estivemos no primeiro desmanche da favelinha da Cracolândia em 2014, quando começou o programa Braços Abertos. Queremos saber como você vê o usuário de crack. Quem é esse sujeito?
Olha, eu acho que nós não devemos estigmatizar em primeiro lugar, imaginando que exista um único perfil. O que eu vi na Luz, antes de lançar o Braços Abertos, foi um problema dramático. A partir dessa visão, que, na minha opinião, é muito mais sofisticada do que a visão tradicional sobre droga, você tem de enfrentar o problema a partir da questão social. É óbvio. Toda literatura atualizada vai nessa direção. Eu li com muito gosto o livro do Carl Hart [Um Preço Muito Alto]. E o que eu aprendi lendo esses livros e conversando com especialistas é que, se você não cuidar da questão social, você não tem a menor chance de recuperar essa pessoa. Então, a política de redução de danos é efetivamente a mais recomendada pra esse pessoal. Havia uma recomendação do governo do Estado pra que a Prefeitura fechasse os hotéis do centro que eram utilizados para o tráfico e para a prostituição. Nós não fizemos isso. Nós criamos o programa, alugamos os hotéis pra Prefeitura. Em vez de expulsar as pessoas do centro, que é a recomendação higienista, né? "Põe todo mundo pra fora daqui, interna, se livra." Nós vamos alojá-los e vamos criar um programa que oferece alimentação e trabalho voluntário remunerado – que é a grande novidade do Braços Abertos e que chamou a atenção do mundo. Veio gente da Holanda, do Canadá, da Inglaterra [nos] visitar por causa disso, dessa combinação de assistência, cuidados médicos. Todos têm prontuário, todos têm acompanhamento médico, alimentação, a questão do trabalho, a questão de [se] oferecer pra essas pessoas uma oportunidade de elas reconstruírem a sua trajetória. Qual é o problema do Braços Abertos que as pessoas, às vezes, não conseguem compreender? A política de redução de danos é incompatível com a presença do grande traficante no local. Aquele tráfico feito pelo próprio dependente – que é quase uma distribuição – é uma coisa. Mas nós não estamos falando disso. Quando as barracas se instalam e dão proteção pro tráfico, vem o grande traficante com bandeja de crack, com tijolo de crack. O pessoal, às vezes, chama de laje, chama de tijolo. Essa proteção não é para o usuário, é para o traficante. E isso impede a abordagem dos agentes de saúde e dos assistentes sociais. Desorganiza o território, que é o espaço público privatizado pelo tráfico e impede a ação dos agentes de saúde.

A primeira [ação feita na região] foi 100% pactuada, e nós desmontamos a favela. Na segunda, houve uma ameaça de resistência, porque o traficante testa o poder público. E nós fomos firmes e dissemos "Não, não vai montar". Nós não estamos agredindo nenhum direito humano. A pessoa tá lá. Mas o tráfico não vai se instalar numa via pública.

Olhando de fora, dá a impressão de que existe um certo ruído entre a Prefeitura e a polícia. Há relatos de ações desastradas por parte de alguns policiais. Como é essa relação? Foi muito difícil fazer uma negociação pra se entender uma situação de redução de danos, que não é uma coisa usual?
Em um ano e cinco meses de programa, nós tivemos, a bendizer, dois incidentes que reputo mais graves. Um com a Polícia Civil no ano passado e um com a Polícia Militar, que foi mais um acidente do que outra coisa. Abriram até sindicância. Mas não foi uma operação. Um agente que entrou com câmera no meio do fluxo... obviamente, aquilo gerou uma...

Não é a coisa mais inteligente a se fazer. Não no fluxo.
Não foi uma ação planejada. Foi uma ação voluntarista que gerou um incidente grave. Com tudo isso, em um ano e cinco meses – não que eu queira, ninguém tem de sair machucado de nada –, nós tivemos mais incidentes envolvendo mais feridos no campo da guarda e da própria polícia do que no campo de moradores em situação de rua ou usuário[s]. O ideal é chegar o momento em que nada disso aconteça, e nós estamos buscando isso. Mas há muita provocação por parte de agentes que vão lá porque não querem que o programa dê certo. Isso não é o usuário. O usuário tá em paz lá. Alguns até pedindo vaga no programa. Tá certo? Tem uns que não querem, mas tem uns que querem. Quando a gente aluga um novo hotel, a gente inclui mais pessoas. Tem pessoas que lucram com aquilo. Existe lucro ali. E é isso que, às vezes, não é percebido. A pergunta é: quem lucra com aquilo? Alguém lucra. Essa pessoa pode defender o Braços Abertos? É evidente que não. A arte toda é conseguir de certa maneira manter o programa com os usuários, os dependentes, os agentes de saúde, os assistentes sociais... manter o programa afastando essas pessoas que concorrem pra sua aniquilação, que desejam que ele não dê certo. Faça a conta. Quando tinha 1.500 pessoas lá. Hoje tem, no pico, 300. Mas chegou a ter 1.500 pessoas no fluxo. Suponha que cada uma consuma 10 pedras por dia. Vê o que isso significa de lucro anual. Não é desprezível. Nós estamos falando de 1.500 vezes 10, dá 15 mil; 15 mil vezes 300 dias, 365 dias. Nós estamos falando de cinco milhões de pedras.Se a pessoa ganhar R$ 2 por pedra, nós estamos falando de aproximadamente R$ 10 milhões de reais por ano. Esse dinheiro evaporou porque hoje caiu 80, 90% o consumo na região. Então, alguém perdeu muito dinheiro. Essa pergunta não se faz. Eu acho estranho que pessoas dessa cidade críticas ao programa não se façam essa pergunta.

Estivemos lá alguns dias antes de acabarem com essa última favelinha: era como se fosse uma feira mesmo. Montada com bancos, mesas, pratos e tudo isso que você tá falando.
Vocês chegaram a entrar lá?

Sim. Não foi fácil.
Não conseguiram fotografar, né?

Não. Fomos uma outra vez.
Vocês viram aquelas bandejas?

Sim.
Contem o que vocês viram, porque, às vezes, a gente conta e não acreditam.

Na última vez, vimos um cara fantasiado de Coringa do Batman. Temos uma pergunta aqui que veio do João Carlos Batista, o João Boca, pastor da Missão Cena. Ele tá há 20 anos andando por ali. E é ele quem torna nossa ida até lá viável – e, talvez, segura.
No fluxo, o risco é grande.

Ele levantou uma lebre há alguns anos, e isso não tem uma comprovação de números; no entanto, é uma visão que ele tem, a visão de uma pessoa que quase diariamente está lá no fluxo. Ele relatou.
Ele é um pesquisador?

Ele é pastor da Missão Cena, uma igreja que tem na General Couto de Magalhães. Eles fazem reabilitação, tiram as pessoas que querem sair de lá, e ele é um cara que tem trânsito livre ali de alguma forma. Ele relatou que, em época de Virada Cultural, na semana seguinte principalmente, tem um aumento de contingente da Cracolândia. De pessoas que estão ali no Centro e acabam...
Se perdendo ali?

Isso, se perdendo ali.
Ah, é mesmo?

Vocês sabiam disso? Já tinham ouvido falar disso?
Não. Mas é uma observação muito importante. Boa observação.

Vamos pro outro fluxo? Com as matérias que temos feito e as coisas que temos abordado, nós reparamos que há no life style da molecada um fetiche por lança-perfume. Principalmente nos fluxos.
De funk? Ah, por isso que você falou do outro fluxo...

A gente tem acompanhado a Secretaria de Igualdade Racial, que tem feito fluxo legalizado. Temos visto isso de perto. Nós identificamos essa coisa do lança-perfume como sendo muito forte. O lança tá na música, tá na rotina de alguma forma. A gente fez uma matéria sobre isso contando um pouco o que é essa droga. Procuramos o Denarc, que demonstrou não ter quase nenhum conhecimento. Não existem números, é uma droga manufaturada. A nossa pergunta é: existe alguma política pública voltada à redução de danos ou alguma outra ação no uso do loló?
Olha, o que aconteceu com o funk foi uma coisa muito parecida com o que aconteceu com tudo em São Paulo, né? Não queremos criminalizar. Dada a proliferação de pontos de fluxo na cidade, era absolutamente impossível você contratar agentes públicos pra, de madrugada, irem a todas essas localidades e sair multando. Nós temos de administrar a situação nos aproximando dos organizadores. Aí, outro estigma: "Quem organiza o funk é o tráfico". Não é verdade. Pode ser que 10% dos bailes possivelmente sejam organizados por pessoas ligadas ao tráfico, mas, em 90% dos casos, isso não é verdade. São jovens querendo se divertir numa cidade dura. Nós fizemos reuniões com centenas de organizadores em todas as regiões da cidade. Resultado: de 2014 pra 2015, caiu [em] 75% a reclamação do funk na cidade de São Paulo. Em um ano de trabalho. E a nossa conversa com eles foi muito franca: "Olha, o gênero musical [de] que vocês gostam é problema de vocês. Gênero musical é cultura. Se for samba, pagode, o que for, a gente vai compreender. O lazer de vocês a gente também entende. A falta de espaço na cidade, falta de horários, falta de suporte a gente também entende. Em contrapartida, o que estamos pedindo pra dar suporte pra vocês é o seguinte: os pais, os tios, os avós de vocês e a comunidade precisam descansar pra trabalhar no dia seguinte. Vamos tentar estabelecer o mínimo de conforto pra todos? Vamos tentar explorar o território de maneira a identificar pontos. O desconforto do som vai ser menor". É muita gente. Eu não saberia estimar o número de pessoas que vão a esses bailes, mas não é pouca coisa.

E o loló?
Loló é o lança, né? O que eu acho é o seguinte: a Prefeitura não tem o Denarc. A Polícia Civil tem de investigar de onde vem essa produção, onde ela é feita, quem tá distribuindo. Isso não é uma ação da Prefeitura. A Prefeitura não tem aparato pra isso. Toda vez que o poder público se aproxima da comunidade, oferece condições e organiza sem tolher, sem reprimir, melhora tudo. Tudo melhora. Melhora nível de consciência. Às vezes, os adultos se aproximam, e a presença do adulto acaba sendo um fator muito mais inibidor do que a presença de um policial. Eu acredito muito nos controles "sociais" feitos pela própria comunidade. A comunidade se protegendo, protegendo suas crianças, seus adolescentes. Acho mais efetivo do que a gente imaginar que você vai ter um policial por habitante. Não vai acontecer. Não vai dar certo. É muito mais efetivo e educativo do que o Estado se arvorar essa atividade.

No ano passado, dois pixadores que invadiram um prédio na Mooca pra pixar foram mortos pela polícia. Falamos sobre o julgamento das pessoas, sobre o usuário de crack e tudo mais. O pixador também é muito mal visto em todos os aspectos. O que é o pixo para o prefeito da cidade de São Paulo?
O que menos importa aqui é o meu gosto estético. O que mais importa é como entender essa manifestação, lidar com ela à luz de como a cidade a percebe. Essa é a função da administração pública. Eu entendo o seguinte: tem muitas tribos na cidade de São Paulo. Tem o pixador que respeita o grafite e tem o pixador que não respeita o grafite. Uma contradição. Falam que o grafite já foi cooptado pelas políticas públicas, mas isso não é unânime entre eles. Tem pixador que acha que o espaço que a cidade está abrindo pra arte urbana inicia um tipo de diálogo que interessa pra boa parte deles. No sábado, eu estive na Bienal do Grafite e tinha lá alguns pixadores que me abordaram e disseram "Olha, com você tem conversa". Tiraram foto, postaram. Tô longe de dizer que é representativo de todo pixo, mas quero dizer o seguinte: quando o poder público desce do salto, se coloca numa situação de horizontalidade, busca entender, compreender e dialogar, ele abre possibilidades, inclusive estéticas, que não estavam dadas. E isso vai promovendo metamorfoses na cidade que a gente não sabe até onde vai levar. Tem estimativa de que 10 mil pessoas pixam na cidade de São Paulo. Seria um em cada mil habitantes. Isso pode ser verdade. Eu já estive no centro, nos points, e vi concentração de mais de mil, mil e quinhentos que estavam ali trocando...

Folhinha.
Trocando folhinha e tal. Vi o filme Pixo [do João Wainer], que também é uma forma de conhecermos a história. Distensionar a cidade é uma maneira muito interessante de se apropriar, no bom sentido da palavra, do que ela tem de vital, do que ela tem de criativo, de interessante. É óbvio que muitos confundem isso com uma atividade de cooptação. Entendem que o poder público, ao fazer isso, na verdade está querendo subverter a desordem. Como eles querem subverter a ordem, nós queremos subverter a desordem. E não é isso. É o reconhecimento de que a cidade é um organismo contraditório em si mesmo. É o reconhecimento de que as perspectivas nem sempre apontam pra mesma direção, mas [que se deve] tentar transformar a diversidade da cidade na sua principal força criativa. Então, quando o Estado deixa de ser um problema e passa a ser um interlocutor, nós podemos esperar – eu pelo menos espero – que novas formas de expressão vão surgir da tradição da cidade. O que é uma cidade? Um ambiente onde o espaço do encontro tem de promover necessariamente três coisas pra que ela funcione bem: a cidade tem de produzir conhecimento, cultura e política, que são as atividades humanas mais criativas.

E quando você olha uma parede completamente pixada, o que é que você lê ali? Você consegue entender o que está escrito?
Não. [risos]

O que você acha?
Eu não alcanço.

Perguntamos isso, porque é uma linguagem codificada mesmo. A gente olha muito, observa e destravou uma chave que nos permite ler.
Quando você consegue ler, muda tua percepção?

Tem gente que vem de fora, de outros lugares, justamente pra decodificar isso e entender, estudar, pesquisar.
Pois é. Tem gente que estuda isso, né? Mas eu, efetivamente, não decodifico.

Você pretende se reeleger no ano que vem?
[risos] Olha, eu acho que tem um congestionamento em debate sobre eleição no Brasil porque os anos são eleitorais ou pré-eleitorais, né? Então, é um inferno na vida das pessoas. Eu não gosto de falar em eleição em ano não eleitoral, porque é o tempo que você tem de amadurecer coisas legais. [No] primeiro semestre do ano que vem, a gente discute o assunto.

Falando em amadurecer, precisamos fazer esta pergunta: você pensa em se candidatar a presidente em algum momento?
Menina... São Paulo é um desafio suficiente pra qualquer político. O Lula, outro dia, me disse: "É mais difícil ser prefeito de São Paulo do que presidente da República". Então, pra quem gosta de desafio, São Paulo tá bom.

Colaboraram Felipe Maia e Larissa Zaidan

Fonte: Site Vice

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