OPINIÃO: O Alfaiate de Ulm e o Decênio do Governo do PT

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O Brasil que emerge dos últimos 10 anos é o país que continua combatendo as suas desigualdades raciais e sociais e as transformou em política de Estado

 
Por Cássio Murilo Costa Terça-feira, 14 de maio de 2013

Há um poema de Brecht “O alfaiate de Ulm”, que se refere a um certo alfaiate do século VXI e à sua idéia obsessiva de voar. Acreditando ter conseguido fabricar o aparelho perfeito subiu no telhado da igreja se projetou sobre o ar e…se espatifou no chão. Reproduzo aqui a ultima estrofe:
“Façam tocar os sinos Aquilo foi invenção Voar só para os pássaros Disse o bispo aos meninos Os homens nunca voarão”
Encontro neste poema a resposta para um dilema atávico nos debates políticos sobre a sociedade brasileira e as suas desigualdades. Havia um tropismo que afirmava que a concentração de renda, a pobreza e a miséria de milhões de brasileiros pouco provavelmente acabariam entre nós por serem algo que fazia parte de nossa História, esse discurso foi sempre muito hegemônico entre nós, em síntese,um modo de “naturalização” e legitimação dos nossos males sociais. Aproveito as comemorações do decênio do Partido dos Trabalhadores no Governo Federal para reiterar como o partido e o bloco histórico de aliados puderam fazer milhões de brasileiros e brasileiras terem capacidade de quebrar um tabu histórico graças a uma lógica de inversão de prioridades das políticas públicas no país.
O PT nasceu sob o signo das lutas democráticas, da mobilização dos trabalhadores e não ficou imune às contradições da sociedade de onde nasceu. Uma vez no Governo, o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma cumpriram um programa mínimo e uma agenda estratégica ancorados nos princípios de inclusão pelos direitos e pela renda, daí resultaram: aperfeiçoamento da democracia; politica de valorização do salário mínimo, que no início de 2003 era de 76,92 dolares, (segundo dados do IPEA/IBGE/Banco Central) para pouco mais de 335dolares em 2013; diminuição da desigualdade social do pais com mais de 40 milhões de pesssoas saindo da linha de pobreza para a chamada nova classe média, que prefiro chamar, à maneira de alguns sociólogos, nova classe trabalhadora; reconhecimento das centrais sindicais e a transformação de demandas sociais em políticas públicas para os trabalhadores, inclusive criando 19 milhões e 300 mil de empregos, uma situação de quase pleno emprego, devendo-se também levar em consideração que a taxa de desocupação é de 5,7% em março de 2013, de acordo com o IBGE; criação de um mercado interno de massas pulsante, forte e que ajuda a manter nossa economia ainda sólida, não obstante uma crise internacional que dura anos, e do atual perigo inflacionário; acrescido a isso uma política externa soberana que nos catapultou para inclusão no BRICS e nos tornarmos uma das maiores referencias como liderança da America Latina.
O Brasil que emerge dos últimos 10 anos é o país que continua combatendo as suas desigualdades raciais e sociais e as transformou em política de Estado, como bem afirmou a presidenta Dilma Rousseff num artigo da Folha de São Paulo de 30 de dezembro de 2012. Nos últimos dois anos, aprofundando as transformações reais pelas quais o Brasil está passando, as políticas públicas de transferência de renda, de educação e saúde tem sido guiadas pela lógica da inclusão de milhões de brasileiros que se encontram em miséria extrema, essa capítulo deverá ser longo, dadas as barreiras históricas impingidas a pessoas que vivem em bolsões que lembram as condições humanas ainda do século XIX, seja nas grandes aglomerações urbanas ou nos rincões mais longínquos do país.
Essa transformação, essa revolução sem armas criou uma situação inusitada no Brasil, hoje nós temos uma direita apocalíptica que, sem visualizar um projeto que faça o contraponto – as teses neoliberais de estado mínimo e de desregulamentação da economia foram responsáveis pela atual crise mundial e pelos indicadores sociais negativos do Brasil na década passada – passa a trabalhar com a hipótese da crítica moralista, do denuncismo e de um puritanismo de vestal fundamentalista que beira uma linha de raciocínio apoucada. Hoje, como em 2010 a disputa é polarizada, parece não existir espaço para terceira via, qualquer força que surja e proponha uma relativização entre as diferenças programáticas dos dois campos, o progressista e o conservador, cometerá um erro estratégico e tático de fazer o jogo da direita, prática defendida hoje por setores que respondem por uma visão alternativa do campo democrático-popular e por um suposto espólio do PT que fazem uma crítica focada na descaracterização do PT.
A direita não faz exatamente política, do nosso ângulo pensamos ser ruim a idéia de pensamento único, muito confortável para as ditaduras, portanto, acredito que deveriam se reorganizar e pautar uma agenda estratégica para o país, um aggiornamento sem fazer tábula rasa do ultimo decênio. Há muitos problemas para serem resolvidos no país, mas devem ser resolvidos com a sensibilidade e a inteligência do seu povo, assim, sou muito cético em relação à uma alternativa de direita hoje.
Por outro lado, o Partido dos Trabalhadores continua sendo um partido que compreende as contradições do seu tempo e se o que permite avaliar a história de um partido é o teste do poder, o Partido tem desempenhado bem o seu papel. Um papel que resgata o Estado como indutor de políticas públicas e serve como instrumento de transformação e de mudança na vida de milhões de brasileiros e brasileiras.
*Cássio Murilo Costa é professor e militante petista.

 
 

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