Fidelidade partidária e "cristianização"

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Há, paradoxalmente, uma falta de sintonia entre seções partidárias estaduais e federais dos mesmos partidos políticos. O maior exemplo disso é o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), parceiro do governo federal que indicou o vice-presidente na chapa de Dilma Roussef que, em São Paulo, se alinha ao PSDB e ao DEM.
A vice-prefeita de São Paulo Alda Marcoantonio foi indicada pelo PMDB paulista para fazer parte da chapa encabeçada por Gilberto Kassab (DEM) que, na época da campanha eleitoral, foi apoiado pelo então governador José Serra (PSDB).

Esse descasamento entre as alianças nos estados e a nível federal é, em certa medida, determinado pela lógica da ocupação de espaços. Não são poucos os cargos federais e no município de São Paulo ocupados pelo PMDB.

O histórico do PMDB pós ditadura militar é governista. Bem ao contrário dos anarquistas, que têm como lema os dizeres "se hay gobierno, yo soy cuentra", o PMDB atua sempre como parceiro e aliado dos governos, ainda que estes sejam comandados por legendas opostas. 

Já vivemos situações em que os eleitores eram obrigados a votar, a cada eleição, na chapa completa de determinado partido ou coligação. O próprio PMDB se beneficiou disso em 1986, quando elegeu praticamente todos os governadores do país.

O voto vinculado, como era chamada a regra, não perdurou. Hoje o eleitor pode escolher seus candidatos em legendas diferentes em um mesmo pleito eleitoral. A quantidade de votos obtida, por exemplo, por Geraldo Alckmin no estado de São Paulo, não corresponde exatamente à votação obtida pelo candidato de seu partido à presidência da república na mesma circunscrição.

Isso pode ser explicado pela difusão de um senso comum que privilegia as pessoas em detrimento dos partidos politicos. Dilma Roussef é mil vezes mais simpática do que José Serra. Sua vantagem nas eleição era ainda maior por causa do apoio do presidente Lula, o mais bem avaliado de nossa história republicana.

A infidelidade partidária do eleitor é, no entanto, compreensível. O abandono e a "cristianização" (*) de candidaturas por correlegionários de uma mesma agremiação deve ser entendido de outra forma. As respectivas instâncias partidárias devem se mobilizar para assegurar que suas campanhas eleitorais sejam mais unificadas e que suas alianças nacionais e estaduais não sejam tão diferentes.

As providências internas, ainda que necessárias, podem criar fraturas e problemas que podem comprometer o futuro das legendas. Cada partido terá que administrar suas crises internas e procurar as melhores soluções para a manutenção da unidade.

A legislação eleitoral, entretanto, poderia dar uma ajuda. A realização simultânea de algumas votações e as posteriores composições das equipes de governo criam situações no mínimo contraditórias. Neste momento, por exemplo, o deputado federal Márcio França (PSB) acaba de assumir uma das secretarias do governo do tucano Geraldo Alckmin e assiste seu partido se firmar como uma das legendas da bancada de sustentação do governo federal comandado por Dilma Roussef (PT).

A descoincidência de datas das eleições em cada um dos níveis seria uma medida interessante para a reforma política que deve ocorrer em breve. A fidelidade partidária deve ser assegurada pelas instâncias de cada agremiação. Essa história, no entanto, só terá alguma mudança quando os projetos políticos forem mais importantes que as pessoas. Quando os partidos políticos superarem as vaidades pessoais e conseguirem impor a todos os seus filiados sua ideologia e seu programa.

(*) cristianização": Nas eleições de 1950 o PSD (Partido Social Democrático) pretendia ter como candidato o então ex-presidente Getúlio Vargas. A demora de Vargas em se decidir fez com que eles lançassem a canditura de Cristiano Machado, um politico mineiro sem expressão nacional. Vargas se tornou candidato pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e a maioria dos líderes do PSD abandoram Cristiano Machado e apoiaram Getúlio. Desde então, sempre que alguma candidatura é abandonada no meio de uma disputa eleitoral, diz-se que houve uma "cristianização" do candidato.  

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José Claudio de Paula é membro titular do
Conselho de Ética do Diretório Estadual do PT de São Paulo

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