Por Tagutti: Haddad para mal-humorados (porque acho que ele será reeleito),

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O povo paulistano é um dos mais mal-humorados do mundo. Pudera. A vida para o morador da Pauliceia é um turbilhão, e tudo aqui a gente quer pra já: a pizza encomendada sexta-feira, o chopp com colarinho do Bar Brahma, o relatório na mesa, a solução mágica de todos os problemas pelo Prefeito..

Não é a toa que a cidade é o túmulo dos políticos, como bem atestou Haddad.

Só ver o que aconteceu, e por diferentes motivos, com Maluf, Pitta, Marta, Serra, Kassab. Vejam que São Paulo não perdoa nem boas administrações. Foi Marta que implantou o bilhete único, os corredores de ônibus, os CEU'S, o Domingo na Paulista, e mesmo assim teve que dar adeus a vôos mais largos.

Qual então foi a solução escolhida por Haddad? Ser teimoso. Governar. Sem olhar para a reeleição e - pásmem! - bater de frente com os mal-humorados.

Primeiro, foram os corredores de ônibus. "Ah, maldito Prefeito! Que demagogia eleitoreira! Você quer parar SP!" já começou a murmurar a turma que adora um trânsito.

Depois, o papo de blocos de carnaval de rua, democratizando o acesso e trazendo cultura popular para os mau-humorados. "Ah, foi ele que fez? Demagogia!" disse um amigo ranzinza, com a lata de cerveja na mão e entre uma e outra marchinha carnavalesca dos Beatles, embalada pelo Bloco Sargento Pimenta.

Quando souberam que a Prefeitura proibiu a cobrança dos famigerados "abadás", então, foi um Deus nos acuda! "Que que isso de não permitir que o paulistano usufrua uma instituição sagrada, a de cobrar pedágio para evitar "gente diferenciada"? Se fosse o outro lá, com certeza existiriam rampas anti-pobre, para evitar que o pessoal da perifa entrasse no centro expandido no Carnaval! É assim ou vou-me embora pra Juquehy!", foi o que os ranzinzas reclamaram muito no Twitter.

Depois, o tal do IPTU progressivo, que teve o DESPLANTE de aumentar a carga tributária para alguns bairros (o fato de diminuir para os mais pobres os mau-humorados de classe média não lembraram, e os mal-humorados de classe baixa não tomaram ciência). O prefeito, que despacha do Centro, nunca viu o Impostômetro, não? Que saco!

E, se desgraça pouca é bobagem, com tanto problema que aflige São Paulo, o mal-humorado observou estupefato o comunistinha da USP resolvendo dar Bolsa-Droga pros desajustados que moram na Cracolândia! "Sorte que não é governador, senão já colocaria eles na FFLCH pelo sistema de cotas!" pude imaginar alguns resmungando. "Trabalhar de gari? Porque não ensinam ele a pescar! Aliás, gari ganha muito pouco! Na Noruega garis vivem muito bem! Prefeito incompetente!" disseram outros.

E, se desgraça pouca é bobagem, fica de flertezinho barato com aquele Boulos do MTST, playboyzinho esquerda caviar filho de Professor da Pinheiros! Vê se pode?

Realmente, não é fácil ser Prefeito de São Paulo. Tanto que Haddad foi muito bem sucedido no seu intento de irritar os mau-humorados, alcançando olímpicos 47% de rejeição. Ao paulistano apressado (pleonasmo), vaticionou-se mais um enterro político. Só falta rezar a missa. Da próxima vez a gente chama o Tiriririca.

Mas esse é realmente o Fim? Sei não. No meio de toda essa balbúrdia, observa-se que lá e cá o mau-humor começa a dar pequenos sinais de arrefecimento.

Caiu a ficha para alguns que as medidas não são pontuais, eleitoreiras, mas seguindo uma lógica, uma concepção de cidade que ninguém teve coragem ou interesse de implementar. Observa-se, aqui e ali, a desconfiança sendo desarmada. De repente, as pessoas começaram a visualizar uma cidade menos dependente do carro, mesmo isso sendo uma realidade muito distante. Onde possam andar de bicicleta nas ruas, igual naquela viagem do ano passado pra Amsterdã. Onde possam usufruir melhor dos espaços públicos, deixando essa cultura perniciosa de confinarem-se apenas em pequenos espaços privados e caros.

"É, ele não é tão mal assim", já começo a ouvir de alguns mau-humorados. "É um petista diferente", ouve-se de outros, em pleno templo sagrado anti-Dilmista em que se tornou SP. Às vezes, até um mais ou menos ousado arrisca dizer "O Melhor Prefeito da história". De plano, o Prefeito, de inimigo público número 1 dos mau-humorados, vai ganhando alguns fãs, gradativamente, entre ciclistas, patricinhas, foliões, hippies, yuppies, que habitam redes sociais e dizem para todos, pessoalmente ou pela internet, que é preciso deixar o homem trabalhar.

As ciclovias coroam essa concepção. Há alguns anos atrás vi, na Avenida Paulista, estirado no chão o corpo de uma ciclista que tinha acabado de ser atropelada por um ônibus. A roda do ônibus tinha passado em cima da cabeça dela. "Uma tragédia! Mas esses ciclistas precisam ser menos irresponsáveis! Perigoso andar no meio dos carros! Nenhum Prefeito tem ou terá interesse em deixar essa cidade amigável aos ciclistas!", alguém disse, e todos em volta concordaram. Felizmente, ele, eu e milhões de paulistanos nos enganamos no nosso mau-humor.

Posto isso, suspeito, apesar de todas as previsões, que Haddad será reeleito. Pois é um dos únicos que entenderam o recado das manifestações de 2013, e que resolveram ter coragem pra abraçar as novas demandas. Sua rejeição atual creio que não se sustente, é apenas o resquício de uma mentalidade anacrônica e que de pouco em pouco será atropelada pela esperança de uma São Paulo menos inabitável.

Pode-se repetir, em 2016, o "Tsunami" que embala Marina Silva, que começa nas classes médias, urbana e "descolada", e se dissemina para todas as outras classes sociais. De fato, uma coisa político algum pode ignorar: em tempos de redes sociais, a influência dos jovens da classe média é avassaladora.

Ainda mais depois do lulismo, em que dezenas de milhões passaram a ser incluídos oficialmente nessa classe (e gostaram muito disso por sinal). Nomeá-la como "violenta, fascista e ignorante", ou referir-se às manifestações de junho como micareta de coxinhas teleguiados, é a senha para uma boa temporada na Sibéria política. Eles não sabem bem o que querem, mas sabem exatamente o que não querem.

Ora, se a maioria é classe média (será?), o discurso 'Haddadiano' possui a novidade de reduzir a ênfase no conflito de classes (não ignorando-o, como se pôde perceber no IPTU e na negociação do Plano Diretor), e focar mais no discurso das políticas universalistas (serviços públicos, política urbana, participação política). Ao contrário de Marta Suplicy, que possui alta popularidade na periferia mas é rejeitada no centro expandido, Haddad faz caminho diverso, procurando ganhar também as classes médias.

Ele, de fato, entendeu a necessidade de reciclar o discurso, e tudo indica que em pouco tempo pode surfar esta onda.

Lógico que nem tudo são rosas. Como pontos fracos (e graves), deixou em segundo plano um tema que deveria priorizar tanto quanto mobilidade urbana (educação municipal), e a relação ainda tensa com alguns movimentos sociais, que estão insatisfeitos em suas demandas (um mau-humor legítimo, vamos assim dizer).

Mas, depois da tragédia de várias e várias administrações ineptas, que no final se revelam mais do mesmo, alvissareiro que São Paulo respira novos ares. Mais democráticos e, quem sabe, um pouco menos mau-humorados.

Por Tagutti - Artigo publicado no Blog do Luis Nassif

 

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