Por Rochinha: O PT e a composição do segundo mandato do governo Dilma

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Para chegar a uma análise mais segura a respeito da composição do segundo mandato do governo Dilma Rousseff, não podemos esquecer dos acontecimentos verificados na formação do primeiro governo de Lula.

Na campanha de 2002 tivemos que fazer um movimento de enfrentamento às forças da mídia e da direita no País, onde o mote era que o PT e o governo Lula poderiam levar o Brasil ao caos. Uma das providências para confronta-los foi a chamada Carta ao Povo Brasileiro, que tinha um caráter eminentemente político. Ali estava o instrumento para assegurar ao povo brasileiro e ao mercado o nosso compromisso e a nossa responsabilidade de governar um país complexo e de dimensão continental como o Brasil. Estávamos na verdade recebendo uma das piores heranças dos últimos anos, após uma gestão liberal de oito anos do PSDB, comandada por Fernando Henrique Cardoso.

Na composição do governo Lula, o comportamento do PT, através das suas correntes internas, não foi absolutamente diferente do que está sendo em relação à composição do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Falo aqui de comportamentos de caráter coletivo e não individual. Naquela época, para compor a sua equipe econômica, Lula escolheu para o Banco Central nada mais nada menos do que Henrique Meirelles. Para a Fazenda, um petista dos mais liberais dentro da nossa legenda, Antônio Palocci, que levou para a sua equipe exatamente o economista Joaquim Levy, como responsável pela secretaria do tesouro. Para o Planejamento, o ministro Guido Mantega, que também tem uma orientação liberal. Na área da Agricultura, ele nomeou Roberto Rodrigues, uma figura ligada ao setor sucroalcoleiro e no agronegócio à criação de gado. Para o Desenvolvimento Econômico, um empresário de grande porte chamado Luiz Fernando Furlan. Não me lembro de nenhuma reação coletiva, nem dentro e nem fora das hostes do PT, à indicação desses nomes para o governo Lula.

No PT, tanto naquela época quanto agora, a discussão deve se pautar sobre o compromisso com o programa de governo do Partido, afiançado na pessoa da presidente Dilma, e não em cima de pessoas. Para nós, a questão de nomes – figuras para gerir exclusivamente as áreas de desenvolvimento e finanças – repito, se pautam pelo estrito cumprimento do programa do Partido. Na verdade, o assunto composição de governo se agita muito mais na questão dos nomes escolhidos para as áreas sociais.

Mas, assim como no futebol, também na política aparecem centenas ou milhares de palpiteiros. Alguns me deixam de boca aberta ao fazerem análises totalmente desconectadas e sem conhecimento do que ocorre no interior do PT e dos movimentos sociais. Porém, numa democracia todos tem o direito de sonhar sem acordar. Alguns colunistas ou analistas políticos tentam passar a versão de que o PT e a presidente Dilma estão se submetendo às pressões advindas sobretudo do mercado e do meio financeiro. Mero engano. Digo e repito: aqui não se aceita canga (“peça de madeira que prende os bois pelo pescoço e os liga ao carro”, conforme o dicionário Aurélio). Quando houver necessidade petistas e filiados farão sugestões, críticas e autocríticas, individualmente ou coletivamente, sejam ao PT ou ao governo, sem precisar pedir autorizações.

Outros ainda não aceitaram a derrota na eleição presidencial. Pouco importa se a vitória se deu por 50% mais um, ou 51%, para nós o importante é derrotar os projetos da direita neoliberal. Se a matemática prevalecesse, no resultado final da eleição no primeiro turno quem saiu com 58% dos votos deveria automaticamente ter ganho com pelo menos esse mesmo percentual de votos no segundo turno. Não custa destrinchar os resultados e comprovar que o PT e a presidente Dilma, entre o primeiro e o segundo turno, conquistaram nada menos do que 10 milhões dos votos que os outros concorrentes tiveram no primeiro turno, enquanto o adversário que achava que a eleição estava ganha apenas com os resultados do primeiro turno conquistou mais ou menos 13 milhões de votos. Então prova-se claramente que o PSDB na realidade não teve aquela chamada “expressiva votação” que eles tentam, junto com a velha mídia, passar para a sociedade brasileira.

Quero encerrar dizendo que temos a obrigação e o compromisso de fazer quatro anos de um governo que consolide as políticas sociais dos últimos 12 anos e estruture a economia brasileira. Aos perdedores, democraticamente, cabe esperar que chegue 2018 quando, se depender de mim, lançaremos o companheiro Lula para avançarmos até 2027. A partir daí, o tempo a Deus pertence.

*Francisco Rocha da Silva, o Rochinha, é dirigente do PT

 

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