Por Emir Sader: Nem golpe, nem impeachment

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Em alguns países latino-americanos, cansada de perder eleições, a direita acena, às vezes, com golpe ou com impeachment – golpe branco. Conseguiram em Honduras e no Paraguai em processos que apenas começavam, não haviam ainda conseguido se consolidar politicamente, traduzindo suas frágeis políticas sociais em apoios políticos.

No Brasil e na Argentina, a direita tem uma longa tradição golpista. Ela se constituiu na oposição às maiores lideranças populares desses países no século 20 – Getúlio e Perón – e por isso tem fortes ranços elitistas, racistas, oligárquicos, entreguistas. Nunca se conformaram em ver países que consideravam seus serem governados por líderes com forte apoio popular.

São assim direitas gêmeas, que levaram o Getúlio ao suicídio em 1954 e derrubaram Perón em 1955. Que deram o golpe de 1964 no Brasil e deram um similar na Argentina em 1966 (só que este fracassou e tiveram que voltar à carga dez anos depois, em 1976).

A direita contou sempre com a política norte-americana de jogar uns países contra os outros, para impedir que estes se unissem. Foi assim nas negociações das dívidas externas. Até que, com a eleição do Lula e de Néstor Kirchner, dois dos três maiores países do continente passaram a estabelecer sólidas alianças entre si, como nunca tinham feito na sua história. Constituíram o eixo a partir do qual se consolidaram e se expandiram os processos de integração regional, que isolam os EUA na região.

Mais recentemente, as direitas desses dois países passaram a apelar para possibilidades de golpe, de impeachment, que na verdade são apenas escaramuças para buscar desgastar o apoio popular que têm os governos de Dilma e Cristina.

São direitas que não conseguem nem lideranças com força política, nem plataformas que se distanciem do desgastado modelo neoliberal. Estão condenadas assim à continuação das derrotas e apelam para o desgaste dos governos, apoiados em iniciativas judiciárias e no denuncismo da mídia.

As direitas desses países buscam o isolamento dos setores populares, procurando conquistar as camadas médias e desgastar o apoio popular dos governos.

Hoje, a aposta maior da direita é nas eleições argentinas. Contam com graus de desgaste no apoio ao governo da Cristina, resultado da recessão econômica, da inflação e seus efeitos nos salários, do denuncismo do Judiciário e da mídia, para tentar sua sorte nas eleições deste ano.

A direita conta com dois candidatos: Maurício Macri, com um perfil claramente de direita, e Sérgio Massa, originário do bloco kirchnerista, buscando congregar a setores peronistas opositores. Massa saiu como favorito para unificar a oposição em um eventual segundo turno, mas foi perdendo força, com Macri ascendendo nas pesquisas.

Eles devem enfrentar a quem triunfe nas prévias internas de agosto no campo kirchnerista. O amplo favorito é o governador do estado de Buenos Aires, Daniel Scioli, mesmo não sendo o nome preferido de Cristina. Mas é o único com apoio popular para disputar com os candidatos da oposição.

A melhor chance do kirchnerismo é conseguir ganhar no primeiro turno, valendo-se da divisão dos candidatos da oposição. Scioli seria uma continuidade moderada do governo de Cristina, com possíveis mudanças na política econômica, com menos mudanças na política exterior.

Uma vitória eventual da direita representaria mudança radical na política econômica, na política e meios de comunicação, também na política externa, sem que se saiba em que medida alterarão as alianças do processo de integração regional. Massi seria uma versão mais moderada, Macri uma virada mais radical.

Quando se assente a poeira do caso das acusações do juiz Nizman contra Cristina, o quadro sucessório terá cores mais definidas.

*Emir Sader é sociólogo, cientista político é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, mestre em filosofia política e doutor em ciência política por essa mesma instituição

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