Por Ideli Salvatti: Os 15 de março

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Num 15 de março de 1985, há trinta anos, um civil assumia a presidência da República, no lugar de um militar. Encerrava-se um longo e sofrido período ditatorial de 21 anos. Eleito, ainda pelo voto indireto, conduziu a redemocratização, a constituinte, para que, finalmente, a pouco mais de 25 anos, o povo brasileiro pudesse votar e escolher democraticamente o seu presidente da República.

Quem viveu ou conhece História, sabe o que custou de sofrimento, vidas, luta e organização para que chegássemos ao 13 e ao 15 de março de 2015.Dois dias de significativas manifestações nas ruas deste país, com o direito de se expressar livremente: sem medo de prisão, sem ameaça de tortura, sem risco de morte ou desaparecimento.

Manifestações de propostas pela Reforma Política, de defesa da Petrobras, pelo fim do financiamento empresarial de campanha, contra a corrupção, na defesa dos direitos dos trabalhadores. Também de indignação, de protesto.

Manifestações a favor e contra. É do jogo democrático.

Mas, 30 anos depois, neste 15 de março, o ovo da serpente estava lá nos inúmeros cartazes, faixas e palavras de ordem pedindo intervenção militar, aclamando o golpe. Numa afronta ao estado de direito que vivemos, numa afronta e desrespeito ao bem mais precioso da democracia que sofremos tanto para reconquistar: o direito ao voto, ao resultado das urnas, ao exercício do mandato eleito pela maioria.

O ovo da serpente se apresenta cada vez mais frequentemente no nosso cotidiano, nas redes sociais, nas significativas demonstrações de intolerância, de ódio, de eliminação, do enforcamento, do "Feminicídio, sim", do "Comunista bom é comunista morto", das suásticas ... Registre-se, por outro lado, a notável ausência de referências a casos consideráveis de corrupção, engavetados, sem investigação ou punição. Bem como total silêncio contra o imenso iceberg da sonegação, que agora vem despontando no escândalo das contas do HSBC, o Swissleaks.

E é por saber, tanto pela experiência no Brasil, como no mundo, aonde nos levam as intervenções militares, os golpes, a disseminação do ódio, o nazismo, é que temos que combater, enfrentar, denunciar o ovo desta serpente, fatal para a nossa democracia.

Na nossa história não nos faltam exemplos da sedução dessa serpente, envolvendo incautos e bem intencionados. A Marcha com Deus e a Família pela Liberdade, realizada em São Paulo, em 1964, foi precursora do golpe e uma revisita à sua organização, financiamento e às suas faixas e cartazes é profundamente educativa para o fortalecimento da nossa democracia. (Abaixo o imperialismo vermelho / Renuncia ou Impeachment / Verde amarelo, sem foice nem martelo...).

Se quiser ir mais para longe na História do Brasil é só ver as manchetes e a campanha do "mar de lama da corrupção" e do ataque à criação da Petrobras que levaram Vargas ao suicídio.

Por isso temos que realçar o que fortalece a democracia e o que a ameaça. Atuar de forma firme na defesa dos valores democráticos e pacíficos no nosso país. Divulgar quando a sociedade reage às ameaças à nossa democracia, como nas mobilizações de redes sociais que assinalaram as hastags #globogolpista e #MenosÓdioMaisDemocracia no topo dos índices mais comentados no Twitter, nos dias 13 e 15 de março.

É sempre bom lembrar que a democracia humaniza. O autoritarismo, a ditadura é a barbárie.
Na democracia, há adversários a enfrentar. No autoritarismo, na ditadura, há inimigos a eliminar.

Na democracia, o respeito à diferença, ao contraditório, faz os dois polos mudarem, evoluírem, melhorarem. No autoritarismo, na ditadura, o ódio é o motor e a intolerância à diferença um agente perverso que desumaniza.

Isto vale para a sociedade e também para as relações pessoais e familiares.

Não ao golpe, não ao ódio. Vida longa à democracia brasileira.
Humaniza Brasil!


*Ideli Salvatti é ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos

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