Por Erik Bouzan: Há quem serve as panelas?

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Na última quarta-feira presenciamos uma cena um tanto quanto inusitada.  Talvez inédito no Brasil, durante a apresentação de um programa partidário, ouviu-se em determinados regiões da cidade panelas batendo em sacadas de prédios, luzes piscando e buzinas de carro como sendo um “contraponto” ao que estava passando nas TV´s brasileiras. É saudável e natural numa democracia o protesto, dar visibilidade a certo descontentamento ou discordância de determinados fatos.  A democracia avança e se supera se esse princípio for respeitado.

Não deixa de ser inusitada também a forma do tal protesto. Organizados dentro de suas próprias casas, os manifestantes tiveram como principal instrumento de protesto a panela.  Chama à atenção a atitude simbólica e contraditória desse tipo de ato.  Muito se ouviu sobre isso que “bate panela quem nunca passou fome”, ou ainda “na periferia a panela tá cheia” e por isso não houve protesto nas regiões periféricas. Faz sentido.

É evidente o recorte de classe dessas manifestações.  Apesar de o momento que o país vive não ser dos melhores, esses atos foram realizados principalmente nas regiões mais ricas das cidades. Se houve atos em outras regiões, foram pequenos e pouco representativos.

O ato de bater panelas sempre foi uma expressão típica da luta contra a fome. A extrema miséria e a fome já foi um problema crônico no Brasil, até pouco tempo atrás nosso país estava no Mapa da Fome, hoje lideramos o combate à fome e exportamos políticas públicas. Não deixa de ser curioso que apenas mais de 10 depois de começarmos a enfrentarmos de fato o problema da pobreza e da desigualdade deste país as panelas “La Cruisine” dos apartamentos de Higienópolis começaram a ser ouvidas.  40 milhões de cidadãos saíram da miséria, democratizamos o consumo e aumentamos a renda do trabalhador. Mas a indignação seletiva dessas pessoas nunca foi com a desigualdade, a fome e a miséria que nossa elite política e econômica relegou para nosso povo, afinal sempre tiveram a panela cheia. É ai que esteja a maior diferença entre nós e eles.

O Brasil passou por um grande ciclo de desenvolvimento econômico de 2003 pra cá. A maior novidade desse período foi que combinamos crescimento com inclusão social e diminuição das desigualdades.  O desemprego chegou a um dos menores patamares da história do país e com o fortalecimento do salário mínimo e investimentos sociais, aumentamos muito todos nossos índices sociais. A sociedade brasileira está hoje em outro patamar, está bem melhor do que antes.  Mesmo enfrentando muitos problemas ainda, demos um grande salto rumo ao fim da miséria e a uma sociedade menos desigual.  Hoje temos que enfrentar outros problemas, como a qualidade dos serviços públicos que, apesar de já existirem e mesmo com a ampliação dos investimentos por parte dos governos Lula e Dilma, ainda são muito graves. Medidas como o Mais Médicos, o ProUni,  a expansão das escola técnicas entre outros são fundamentais, mas não suficientes.

É verdade que o país passa hoje por um momento difícil. Esse ciclo de crescimento que marcou os governos do PT freou. A crise mundial que começou em 2008 e se estende até hoje é grave e só não chegou antes e mais forte aqui porque ao invés de seguir o que os governos anteriores faziam e a Europa fez, aumentamos os investimentos públicos, apostamos no mercado interno e mantivemos o aumento da renda do trabalhador. Agora essas medidas chegaram ao seu limite e é preciso reorganizar a casa para poder inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento econômico.

Mas voltando ao tema, qual o motivo real da indignação dos mais ricos? Mesmo com as dificuldades enfrentadas, os bancos continuam aumentando seus lucros, os grandes empresários continuam ganhando e aumentando sua renda.  Difícil acreditar que seja a situação econômica atual. A Corrupção? Dizem que sim, mas com toda a importância que tem o combate e a punição aos corruptos e corruptores será que eles estão dispostos a punir a si próprios quando parte pratica a sonegação de altos valores que, assim como a corrupção dos políticos, tiram milhões e milhões das políticas sociais? O Caso do HSBC e a Operação Zelotes mostram o quão prejudicial é esse verdadeiro roubo das grandes elites. Talvez as panelas e as sacadas sejam fruto desse dinheiro.

Uma mistura de ódio político e cultura do privilégio mostra que essa indignação é na verdade com as mudanças promovidas durante esses anos, que diminuíram a distancia entre pobres e ricos, que possibilitaram que o mesmo avião fosse frequentado por classes sociais diferentes. Ou seja, a raiva e o ódio são devido aos acertos dos governos petistas e não pelos seus erros e esse é o real motivo das panelas baterem.  Manifestar-se é um direito de todos, pobres e ricos, mas é preciso entender que não estamos do mesmo lado.

A nós, classe trabalhadora, fica a responsabilidade de nos organizarmos para defender nossos direitos, seja lá quem esteja o ameaçando, e lutar para ampliá-los. As ruas servem para demonstrar nossa indignação e vontade de mudança de rumos. Mas que saibamos diferenciar quem está de fato lutando pelos direitos do povo e quem está apenas preocupado com a perda de seus privilégios e se utiliza das insatisfações gerais para retomar o projeto de direita que sempre os beneficiaram.

 Erik Bouzan –  secretário de juventude do PT de São Paulo

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