Por Carmen Silva: O Evangélico e a Esquerda

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Procuro mais uma vez entender as minhas atitudes como evangélica que sou e não posso deixar de expressar novamente a minha indignação. Porque Deus pôs a Sua mão na Humanidade e esta está desperdiçando mais uma grande oportunidade de viver um mundo melhor e igualitário.

Eu vou fazer minhas ponderações e peço que reflitam comigo.

No meu humilde conhecer e temente a Deus como sou, analiso que, ao criar o mundo em sete eras (para nós, sete dias), o conjunto da perfeição do Universo não poderia ficar somente sob o jugo do unitário. Deus, em sua infinita sabedoria, compreendeu a necessidade de povoar e de criar o coletivo, concebido de forma a dividir e compartilhar tudo na santa paz e harmonia.

Os primeiros habitantes, Adão e Eva, procriaram, nasceram seus filhos e a descendência. Mas começou a ganância, gerada pela inveja de Caim contra Abel. E aí foi a derrocada do homem, a semente do capitalismo e da injustiça.
A descendência de Caim levou a maldição pelo crime cometido por seu ancestral.

O preconceito imperando, a descendência de Caim foi maldita. Sobre seus filhos, netos e bisnetos recaiu a culpa pelas mazelas do ancestral. E seguiu o homem, firme em seu propósito e povoando o mundo, mundo este já dominado pelo capitalismo.

Até que Deus, na sua intensa perseverança com sua criação, arrebatou um justo, Noé, e o incumbiu da tarefa de povoar o mundo de novo… Veio o dilúvio que destruiu todos, só ficando a família de Noé e os animais.

Foi uma oportunidade de pensar e de refletir sobre o propósito de Deus, que é o de uma sociedade igualitária, justa e benéfica a todos.

A descendência de Noé procriou e novamente povoou. Para melhor coordenar o povo, veio a ideia de partilha. E começaram as 12 tribos.

Mas, mas na sua infinita curiosidade e anseio de querer mais, o homem logo começou a cultuar a prática do escravagismo, da opressão. Surgiram os grandes reis, com suas ostentações e a prática e exercício de guerrear.

A peleja fez avançarem as fronteiras mais e mais. E foi assim, com guerras e a prática do escravismo, que os faraós do Egito ampliaram seu império de ostentação.

Incomodado com tais práticas, Deus promoveu um libertador –Moisés — e enviou as sete pragas ao Egito. Ao fim de 40 anos, com muita peleja, Moisés conseguiu libertar seu povo do cativeiro do faraó, porém sem a liberdade do “Eu”, sem a libertação do egoísmo, da ingratidão.

Pensando nessa passagem da Bíblia e nos dias de hoje, não posso deixar de comparar os tempos de Moisés com outras formas de escravidão modernas. Como a opressão do FMI sobre os povos, a Inflação, a falta de leite, a falta de carne, a falta de emprego, os baixos salários, as faculdades caríssimas em que só ricos podem estudar, etc, etc.

Moisés, como homem preparado por Deus que nunca perdeu sua identidade humana, esbravejou, construiu a libertação de um povo, mas não pôde entrar com este povo na Terra Prometida. Castigo de Deus? Não, não. Deus é amor, é sábio. Ele não permitiria que um servo tão devoto e fiel em suas causas e objetivos tivesse mais uma decepção com o povo que ele tanto amou; e que visse em que se tornaria o lugar que ele tanto almejou, transformado em palco do crescimento da devastação humana, do consumismo desenfreado, da opressão de guerras, de preconceitos.

Antes de morrer, Moisés recapitulou as leis de Deus e o Amor d’Ele pelos homens. E dessa mensagem viva surgiram novos homens, líderes aguerridos que não quiseram deixar morrer o objetivo maior de Deus na criação do homem e do mundo, que é o coletivo, o amor, a unidade no viver e a divisão dos bens.

Esses homens de bem, bravejando sua revolta com o rumo das coisas, conseguiram fazer aflorar a esquerda como o grito de almas que não se sujeitavam a tanta descrença, ingratidão, negação e até desobediência ao próprio Deus.

E assim é possível ver que a esquerda aflorou das injustiças, quando a corrente de amor e de fé de um povo foi quebrada, e esse fato foi enfrentado pelo Justo que não se aquietou, formando uma corrente de oposição ao sistema opressivo
e escravagista.
É sobre essa base moral que se assentam os objetivos da esquerda. E a esquerda torna-se ainda mais necessária porque, com o crescimento demográfico, aprofundam-se os problemas da humanidade, tornando imprescindíveis os homens e mulheres que gritem em favor dos mais fracos, que se oponham aos grandes e opressores.

Se meditarmos e compararmos a situação bíblica com a dos dias de hoje, a diferença está no processo, nas ferramentas modernas, mas o contexto é o mesmo. Deus lançava homens aguerridos para alertar a humanidade sobre o que é o bom para todos, sobre como podemos viver conjuntamente, promovendo a vida igualitária e uma sociedade justa. E isso é o mesmo que hoje em dia fazem os cidadãos de bem.

É papel do evangélico ser de esquerda, porque ele se contrapõe aos erros do opressor, do ganancioso, do invejoso, do dominador. É papel do evangélico alertar que o propósito do Criador sempre foi o bem comum.
Assim como a humanidade que nos antecipou, desde a criação o homem caiu na escravidão e ao sair dela se esqueceu das dores que o afligiram. Passamos por uma ditadura que matou e aniquilou a muitos que gritaram e exaltaram a Justiça, pelo direito de viver sem leis arcaicas dominadoras. Apesar disso tudo, hoje, depois de tantos sacrifícios, ainda existem cidadãos que têm a coragem de pedir a volta dessa ditadura.

É como o povo de Deus na época das guerras e da escravidão. Quando recebeu o anúncio de um novo tempo, esse povo esqueceu-se das prioridades de Deus, que eram reconstruir um novo templo, recomposto em amor, cheio de ação para o coletivo e bem comum a todos.

A esquerda é o portador de um futuro melhor. Vem cheia de intenções de bem. É um pequeno remanescente para abençoar o mundo inteiro. Quando Deus se fez homem, para sentir as nossas dores, as nossas mazelas, ele quis afastar a religião do homem, porque esta afastava o homem de Deus quando se transformava em religião preconceituosa, gentrificadora e elitista.

Por isso, façamos como Jesus Cristo e preguemos o amor e a partilha. O apóstolo Paulo pediu que os homens abandonassem suas superstições, referindo-se aos preconceitos e elitismos, e que fizessem da doutrina do amor de Cristo o centro de sua vida.

Eu sou evangélica de esquerda. Acredito na mensagem de Deus e de Jesus para o mundo. Tenho minhas limitações, sou humana, sou pecadora, erro e acerto. Mas tento todos os dias ser melhor. Eu tenho que ser melhor.

 

Carmen da Silva Ferreira, do Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC), para Jornalistas Livres

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