Jeferson Miola: A Veja é um partido político disfarçado de revista

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O lixo semanal da revista Veja traz na capa um close do rosto desfigurado do Lula com uma chamada ameaçadora: “A vez dele”. No subtítulo, faz alusão a supostas revelações do empreiteiro da OAS, que incriminariam Lula. De sobremesa, a revista oferece uma chanchada: “como o filho Lulinha ficou milionário”.

A Veja não surpreende; iludidos são aqueles seres humanos de boa fé que ainda se surpreendem com a vilania daquela revista. A Veja apenas ensina que a patifaria, o ódio e o desprezo de classe não têm limites.

Empregando linguagem asquerosa, a revista investe contra Lula com um desrespeito inaceitável a um ex-Presidente. Em qualquer democracia, ensejaria à prisão pelo crime de ofensa à honra: “Léo [Léo Pinheiro, da OAS] e Lula são bons amigos. Mais do que por amizade, eles se uniram por interesses comuns. Léo era operador da empreiteira OAS em Brasília. Lula era presidente do Brasil e operado pela OAS. Na linguagem dos arranjos de poder baseados na troca de favores, operar significa, em bom português, comprar. Agora operador e operado enfrentam circunstâncias amargas”.

O empreiteiro desmentiu a revista, que ainda assim manteve a circulação.

A atuação partidária da Veja não é novidade. Para a revista, ter status de ‘empresa de comunicação’ serve de fachada para o crime”. A quatro dias da eleição de outubro de 2014, Veja antecipou em dois dias seu lixo semanal trazendo na capa Dilma e Lula em close e a chamada “Eles sabiam de tudo” [sic], com um subtítulo espalhafatoso baseado em suposto depoimento do doleiro-criminoso Youssef.

Tanto antes como agora, a revista não baseia suas infâmias em fatos concretos, mas simplesmente em mentiras e elucubrações que satisfazem a obsessão patológica de desmoralizar Lula, Dilma e o PT.

Não é só a Veja que usa a “liberdade de expressão” como álibi para a prática criminosa. Este é o método da mídia oposicionista e seus servos ideológicos. Merval Pereira, do jornal O Globo, é um praticante contumaz dessa técnica. Na coluna de sábado 25.07 [“O diálogo inviável”] Merval perpetrou um repertório de acusações que decerto lhe foi servido pelo seu colega FHC no chá da tarde na Academia Brasileira de Letras:

“… o PT revelou-se um partido que adota meios corruptos para fazer política, e usa o Estado para financiar seus esquemas, com o objetivo de dominar a máquina pública pelo maior tempo possível;

o PT … é, até que se prove o contrário, o único [Partido] que sequestrou o Estado brasileiro para montar um esquema de domínio político na tentativa de se perpetuar no poder;

… o PT inaugurou uma nova fase da corrupção brasileira, muito mais danosa à democracia por que se alimenta da própria máquina do Estado para continuar dominando-a indefinidamente;

… para, através do desvio de recursos do Estado brasileiro, controlar a vida partidária nacional e desvirtuar o sistema de coalizão partidária através de distribuição de verbas ao Legislativo, envenena o nosso sistema democrático, desmonta a convivência harmônica entre os Poderes da República, quebra o sistema de pesos e contrapesos próprio da democracia representativa;

Como partido organizado e bem comandado, o PT transformou a roubalheira generalizada em instrumento de controle político. O que mudou nos anos petistas é que a roubalheira nas principais áreas do governo foi monopolizada pelo esquema político que almeja a hegemonia. Sem mudar essa postura diante da democracia, não há razão para a busca de um diálogo”.

O Presidente Lula nomeou diretamente dois presidentes da Petrobrás – José Eduardo Dutra e Sérgio Gabrielli. A Presidente Dilma nomeou Maria das Graças Foster e Aldemir Bendine. Durante os 16 meses de frenético espetáculo jurídico-midiático da Operação Lava Jato que começou em março de 2014, nenhuma autoridade da Petrobrás designada diretamente por Lula e Dilma estão indiciadas ou são suspeitas.

As pessoas da própria Petrobrás implicadas na corrupção, como se sabe, são cinco ou seis funcionários de carreira de uma empresa que tem no seu quadro funcional quase 250 mil empregados.

Entre os outros mais de sessenta envolvidos no escândalo que foram arrolados até o momento pelo Judiciário, apenas um deles é do PT, o ex-tesoureiro. Os demais são empresários, lobistas, consultores, doleiros, além de agentes políticos que pertencem ao PMDB, PP, PSB, PSDB e que representam a maioria dos políticos implicados.

Apesar disso, o espetáculo jurídico-midiático promove intencionalmente uma narrativa desequilibrada e desproporcional para desmoralizar o PT.

Merval precisa comprovar a materialidade das imputações feitas ao Partido. Elas são de tal gravidade que, se verdadeiras, implicariam na proscrição de qualquer organização com as características por ele arroladas. Caso o colunista da Globo não comprove suas palavras levianas, não resta outro caminho que não um processo judicial pela ofensa desferida a quase um milhão e seiscentos mil pessoas filiadas ao PT.

Para a revista Veja, o caminho é o mesmo, e deve começar pela apuração do crime cometido na véspera do segundo turno eleitoral de 2014, até hoje sem resultados conhecidos.

Nunca antes na história do Brasil o ambiente esteve tão intoxicado pelo reacionarismo e por práticas fascistas que difundem ódio e intolerância. É essencial agir-se urgentemente contra essa realidade usando os remédios da democracia, das leis e da Constituição.

(Artigo originalmente publicado no site “Carta Maior“, no dia 26 de julho de 2015)

Jeferson Miola é integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea) e foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial

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