Por Juliana Cardoso: O tempo das ruas

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No dia 13 de agosto participei da sessão, na Prefeitura de São Paulo, que lançou o projeto Ruas de Memória. Criado para promover o debate sobre os nomes de ruas em São Paulo que homenageiam os responsáveis por violações de direitos humanos durante regime militar, o projeto é inovador.

Queremos discutir com as comunidades essas mudanças e, assim, trazer o debate sobre os direitos humanos para o cotidiano das pessoas.

Alterar nome de ruas não é algo novo para a cidade de São Paulo. Ao longo de sua história, várias vezes, as trocas de nomes de ruas estiveram relacionadas a eventos marcantes de nossa história. Se fôssemos percorrer o centro da cidade há 150 anos, em 1865, não reconheceríamos os nomes das ruas em que caminhamos todos os dias.

Podemos, por exemplo, pensar na rua 15 de Novembro, que hoje é fechada para carros e abriga a Bolsa de Valores, ligando o Pateo do Collegio ao largo São Bento.

Foi uma das primeiras vias da cidade e, no século 18, tinha o nome de rua do Rosário. Depois de uma visita de suas majestades imperiais à cidade, ela foi renomeada para rua da Imperatriz.

Quando é proclamada a República, em 1889, algumas vias do centro mudaram de nome. A rua da Imperatriz ganhou, então, o nome que guarda até hoje, celebrando a data da chegada do regime republicano, 15 de Novembro. A população, no entanto, não foi chamada a discutir a mudança: ela veio por imposição dos novos donos do poder.

Alguns anos depois, mais uma vez ocorreu uma revisão de nomes de ruas da cidade. Em Campo Belo, tradicional reduto de imigração alemã, existia uma rua chamada Adolf Hitler. No começo dos anos 1930, seu nome foi alterado para rua Almirante Barroso.

A região, junto com Santo Amaro, ainda não fazia parte de São Paulo e foi incorporada à cidade em 1935. Alguns vereadores perceberam que havia uma duplicidade de nomes (uma outra rua Almirante Barroso ficava no Brás) e a antiga Adolf Hitler ganhou o nome atual, Gil Eanes, um navegador português.

Essas transformações fizeram parte da história da cidade e marcaram momentos específicos: a cidade imperial de ruas de paralelepípedos, a cidade da imigração alemã, a moderna cidade do século 20.

A prefeitura de São Paulo acredita que a cidade está preparada para mais essa mudança. Mas queremos que isso seja feito de uma maneira diferente, de forma democrática e pedagógica. Para nós não adianta apenas alterar os nomes. É preciso haver uma consciência das cidadãs e dos cidadãos a respeito das mudanças.

Por isso, cada comunidade pode acompanhar os processos de discussão acerca das mudanças da sua rua. É o começo da criação da consciência do próprio processo histórico da população. É o momento das comunidades perceberem que os crimes da ditadura não foram cometidos apenas contra os que lutaram diretamente contra um regime totalitário. Os crimes foram cometidos contra toda população.

Assim, quem mora na rua que tem hoje o nome de um torturador vai poder contar para os filhos ou netos, orgulhoso, que ajudou a mudar a história do país e da sua rua. Que o nome daquele lugar mudou porque todos escolheram outro, dando um novo começo para um lugar marcado por uma história que, antes, envolvia tristeza e morte.

Por isso, para nós, esse processo de discussão é mais importante do que simplesmente as substituições de placas. É o debate que esse processo propicia que fará com que os nomes dos violadores dos direitos humanos deixem de ser homenageados, para que seus crimes não sejam nunca esquecidos.

Juliana Cardoso é vereadora em São Paulo pelo PT e líder do partido na Câmara Municipal

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