Por Vitor Marques e Sirlândia Almeida: Lutar quando é fácil ceder

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A partir de 2003, com os governos do Partido dos Trabalhadores, iniciou-se no Brasil um processo de transformação social, política, econômica e, principalmente, de valores, que representa um divisor de águas para o país. Com a eleição do presidente Lula e, depois, a presidenta Dilma, setores sociais, historicamente excluídos, passaram a ter a possibilidade de ser protagonistas da sua história. Lula e Dilma fizeram do Brasil, em especial daqueles que mais precisam de atenção, seres com mais cidadania e sujeitos de direitos.

Não podemos fechar os olhos ao fato de que a população hoje tem mais comida, tem mais acesso à educação, mais oportunidade de consumo e moradia e, principalmente, menos miséria, do que tinha antes de 2003. Em 13 anos, o Brasil ficou mais colorido, com a política de cotas, mais jovens nas universidades, mais renda, mais oportunidades de trabalho. A erradicação da miséria e da fome, que antes eram sonhos distantes, hoje são realidades muito próximas.


A realidade social, depois de 13 anos de governos do PT, também mudou muito para as Juventudes. Hoje os jovens das classes mais carentes têm a chance de cursar uma universidade com o ProUni, o Fies, a política de cotas e a expansão da rede federal de ensino técnico e universitário. Enfim, de ter um futuro com mais oportunidades.

A eleição de 2014, pela intensa disputa travada, fez com que a sociedade brasileira se dividisse em opiniões e preferências políticas. Fruto desse acirramento, os lados da direita e da esquerda ficaram fortemente demarcados e, por parte da esquerda, houve uma expectativa muito grande pelo aprofundamento de mudanças e a intensificação da garantia de direitos e avanços para aqueles que mais precisam.

Assim, a crise política vivida hoje em âmbito nacional ocorre, em grande parte, pelas frustrações geradas após as eleições. As forças progressistas da sociedade se decepcionaram com a quebra de expectativas, sobretudo, com o ajuste que atinge mais a classe trabalhadora, em especial a sua juventude. A sensação gerada é de que a crise é um fim em si mesmo, agravando-se pela falta de diálogo com as bases sociais que contribuíram e foram decisivas para a vitória em 2014, e, pela ausência de uma narrativa que deixasse claro que esta travessia na economia é o caminho para garantir mais direitos e ganhos sociais. Se a reforma política é a mãe de todas as reformas, a crise política é a mãe de todas as crises.

A disputa eleitoral de 2014 nos chama atenção e nos deixa uma importante lição: superamos diversos desafios, incluímos milhões de pessoas antes marginalizadas na sociedade, mas deixamos de debater com profundidade e de implementar reformas fundamentais, como a fiscal e tributária, a trabalhista, a do judiciário e, principalmente, a política; além da democratização dos meios de comunicação, para consolidar nosso projeto de país. Mesmo com um governo que avançou e atingiu conquistas históricas, tivemos tropeços. Além disso, os desdobramentos da última eleição mostram que não basta vencer nas urnas, para efetivar nosso projeto precisamos retomar o protagonismo nas conquistas de corações e mentes e assim, consolidar nossa hegemonia na sociedade.

Temos orgulho do nosso passado, mas o PT depende do futuro.

Os rumos do PT e do Brasil dependem, sobretudo, do aprofundamento das discussões ideológicas, pragmáticas e programáticas acerca do projeto que pretendemos. Seja enquanto partido, seja enquanto governo. Mas sempre sabendo diferenciar, reconhecendo e tensionando os limites de um governo de coalizão. Para que ele esteja mais próximo dos nossos objetivos e ideários.

O PT deve ser símbolo de debates e interações com os mais diversos setores da sociedade. Só assim construiremos um ambiente em que seja possível uma Reforma Política, que enraíze a democracia, promova a participação social de forma mais direta, garanta o espaço das minorias e fortaleça as instituições com uma representação mais proporcional aos diversos extratos sociais (renda, gênero, etnia, geracional, etc). Espaços permanentes de diálogos, que extrapolem as instâncias partidárias formais, são fundamentais. Devemos abrir o partido, ouvir, dialogar, interagir e ter a capacidade de acolher novas formas de organização para os novos desafios, frutos desse novo Brasil que ajudamos a construir.


Para garantir e consolidar os avanços deste novo momento não basta um modelo econômico que seja só calcado na venda de comoditties e no consumo interno. Precisamos fortalecer uma economia que garanta a manutenção dos empregos conquistados, promova a geração de novos postos de trabalho, democratizando o acesso à educação e à qualificação profissional. Devemos ter uma política industrial bem definida, com o apoio dos bancos estatais para a consolidação dos nossos produtos com valor agregado, no mercado externo. Uma política externa que fortaleça as relações com organismos multilaterais, criando alternativas de desenvolvimento mundial, em especial com os países em desenvolvimento, lastreada no fortalecimento da soberania nacional e no respeito pela autodeterminação dos povos, tendo como horizonte a inserção altiva do Brasil numa nova ordem mundial, com aprofundamento da distribuição de renda e da inclusão social.

Em São Paulo vivemos um ritmo acelerado de mudanças, num período de intensa agitação e transformações culturais. A cidade viveu com efervescência as históricas manifestações de Junho de 2013, lideradas em boa parte pela Juventude que exigia transporte gratuito para todos e também, lutava por mais direitos. O ano de 2014 foi marcado pela realização da Copa do Mundo de Futebol, sendo São Paulo uma das sedes e palco da abertura dos jogos. Inserido no mesmo contexto histórico das manifestações, o mega evento representou algo muito além do esporte, envolvendo importantes discussões políticas e culturais que ainda causam reflexos em nossas vidas.

Além disso, aquele ano marcou a Capital como principal palco da disputa eleitoral mais concorrida após a redemocratização. Neste cenário, ocorrem as atuais manifestações, como reflexos de uma eleição que ainda não se desmobilizou. Todos esses acontecimentos deixaram a vida em São Paulo extremamente sensível. É neste ambiente, muitas vezes hostil às discussões e mudanças culturais, que tem lugar um governo que acena e prioriza a ocupação do espaço público pelos cidadãos, dialoga com anseios da juventude, promove a inclusão social de setores antes marginalizados. Governa para todos, mas prioriza políticas públicas para aqueles que mais precisam dos serviços municipais.

São Paulo passa por uma transformação que não pode parar. A cidade historicamente cinza, cheia de medos, fechada às pessoas, escondida por muros, de rotina sofrida, e que costuma ser dura com os sonhos daqueles que aqui chegam, vem mudando, ficando colorida e aberta para as pessoas guerreiras que aqui vivem. O caminho que possibilita essa mudança se mostra possível com mais acesso à educação universitária por meio da UniCEU; deslocamento  por meio das ciclovias e ciclofaixas; acesso gratuito à internet nas praças de Wi-Fi; com menos gasto de tempo, nas faixas exclusivas de ônibus; passe livre para os estudantes de baixa renda (cotistas, beneficiários do FIES, Prounistas e oriundos de escolas públicas); diálogo aberto com as galeras do Funk e do RAP; ônibus 24 horas para os que trabalham ou para aqueles que curtem a noite e voltam para a casa de madrugada; mais espaços para contemplar a cidade como a abertura do Minhocão, da Paulista e outras avenidas. Trata-se de um começo, mas nós da juventude temos que atuar para acelerar a velocidade destas mudanças. Temos muito que conquistar e não temos tempo a perder.

Mais do que nunca é preciso dialogar com estes jovens para que eles sejam atores políticos, inseridos em um ambiente de transformação social e não indivíduos manipuláveis pela mídia; para que entendam que a mudança social é resultado de um esforço coletivo, de políticas públicas e de pessoas que querem uma realidade mais justa e democrática. As Juventudes estão organizadas, de diversas formas, em torno de diversos temas e sonhos pela cidade. A Juventude do PT, diante deste cenário e dos desafios existentes, deve ser um espaço de mobilização, de construção, diálogo e ação.

Com certeza, em 2016 não existirá somente uma disputa eleitoral para a continuidade ou não de um governo. Existirá uma decisão fundamental: se vamos continuar abrindo a cidade para as pessoas; garantindo a inclusão daqueles que sempre foram deixados de lado – uma política que seja pela redução de danos e não pela criminalização das e dos usuários, as pessoas em situação de rua, os imigrantes e as e os transexuais e transgêneros; priorizar o transporte coletivo, as ciclovias, a mobilidade urbana e o direito à cidade; oferecendo um serviço público atento a quem mais precisa dele; valorizando a educação desde a infância até o curso superior; ou se vamos apostar no oposto disso tudo.

Ou seja, será decidido se, enfim, poderemos ter uma cidade em que para fora de casa seja possível usufruí-la e compartilhá-la com pessoas de todas as etnias, idades, classes sociais, credos e religiões, ou se da porta para fora existirá somente um não caminho, repleto de incertezas e inseguranças, em que não temos o que usufruir e no qual temos medo de estar.

O PT, como ferramenta indispensável de luta e transformação social, necessita se oxigenar cada vez mais, ouvindo, discutindo, elaborando coletivamente, para encontrar as respostas que sejam do tamanho dos desafios colocados. A vida partidária deve ocorrer dentro e fora das paredes do PT, deve representar oportunidade de participação, questionamentos e formulações.

Para o próximo período, será preciso aprofundar o diálogo com os movimentos sociais, com outros atores políticos e com as bases sociais que possuem uma realidade repleta de lutas defendidas pelo PT. O ano de 2016 exigirá do Partido muito mais que os desafios de um ano eleitoral. Exigirá uma reorganização e uma atuação para enfrentar a intolerância, o antipetismo e o conservadorismo raivoso, gestados nos últimos anos.

É dever das juventudes que querem mais avanços, tensionar o governo à esquerda para que a agenda nacional que venceu as eleições em 2014 seja de fato a agenda de governo a ser implementada pela presidenta Dilma.


É preciso levantar bandeiras. A periferia grita contra o genocídio que mata a juventude negra. Os jovens que ali vivem devem ter o direito garantido a sair de casa com segurança, como já possuem hoje os de maior renda. A atuação da PM na periferia deve ser denunciada com intransigência. Lá, ela age como se estivéssemos em plena ditadura militar, torturando e matando. Não podemos aceitar a atuação de uma polícia que atua como justiceira e define, preconceituosamente, condenados e inocentes.

Temos um sistema carcerário desumano e superlotado, que é utilizado como depósito da população pobre e negra, em especial a juventude. Além de lutar por uma reforma do sistema carcerário, é nosso dever agir para que o círculo vicioso – prisão / ausência de reintegração social / prisão – seja quebrado. A redução da maioridade penal se aprovada, virá para agravar este cenário. Por isso, a Juventude do PT deve ter uma posição firme contra esta proposta e qualquer outra medida que tenha como foco o encarceramento da juventude. É preciso estar lado a lado das juventudes criminalizadas na construção de uma vida mais digna. O jovem da periferia também tem o direito de ser inocente!

 

A política de combate às drogas é ineficiente. Criminaliza usuários e absolve os traficantes. Temos que construir pontes com a sociedade para que esta questão deixe de ser tratada como caso de polícia e passe a ser analisada como uma questão social, de saúde pública e com a presunção da laicidade, incluindo a intersetorialidade que abarque o acesso à educação e a distribuição de renda, e supere os fatores de discriminação social e racial. Devemos quebrar os preconceitos para que sejam possíveis debates sem hipocrisias, que permitam avanços.


A cultura, fonte de conhecimento e instrumento de transformação de hábitos e costumes, deve ser reconhecida e valorizada em sua diversidade na prática cotidiana do PT e nas ações que pautem a sociedade. A JPT Sampa deve fortalecer os espaços de convivência com as Juventudes que querem mais direitos e desejam um mundo mais tolerante. Para isto, as bandeiras e o empoderamento, em espaços auto-organizados, mas também em agendas mistas e transversais, que incluam as pautas das mulheres, negros e negras, indígenas e LGBTs dentro do PT devem ser estimulados, promovidos e fortalecidos de maneira permanente.

Boa parte da nossa juventude divide sua rotina entre estudar, trabalhar, ser pai ou mãe. O jovem não quer depender dos pais por toda a vida. Ter a sua própria moradia é um passo importante para a construção do futuro com mais dignidade e segurança, fazendo valer assim um direito garantido na Constituição Federal. Conquistar a moradia é uma reivindicação fundamental para os jovens, pois apenas 1% da cota de moradia do programa “Minha Casa Minha Vida” é destinado para a juventude. Neste programa, é preciso lutar também  pela redução da idade mínima de 25 anos para 18 anos para que o jovem possa ter a escritura da sua casa própria.

A JPT deve lutar por temas históricos ligados a Juventude. Mas, o momento exige mais: exige a reflexão das Juventudes para temas que extrapolam os temas focados nesta geração, mas que digam respeito aos grandes temas do país e do mundo. Os rumos da cidade, do país e do PT, estão em disputa e a Juventude tem o dever de contribuir na construção de soluções e assumir o protagonismo exigido pelo momento histórico.

Durante a ditadura houve uma geração de jovens que decidiu lutar, colocando suas vidas em risco, pela reconquista da democracia.  Agora, o momento também exige uma decisão. Hoje a luta é por mais mudanças, pelo fortalecimento da democracia e, também, para reconquistar o imaginário da sociedade para que a “Política” volte a ser símbolo de espaço de luta e transformação social.

 

 

Se, em 1980, muitos jovens tomaram a decisão de construir um partido de trabalhadores, de massas e de esquerda; hoje, nós da Juventude do PT, temos o dever de tomar uma decisão: transformá-lo para fazê-lo avançar.

 

Sirlândia Almeida, 24 anos, moradora da ocupação Rio Branco do MSTC / FLM, faz administração na Uninove, candidata à Secretária Municipal Adjunta da Juventude do PT de São Paulo

 

Vitor Marques, 22 anos, Prounista, estudante de Direito da PUC-SP, candidato à Secretário Municipal da Juventude do PT de São Paulo

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