Luna Zarattini: Por uma JPT presente: ousar para mudar!

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Na última década, a sociedade brasileira passou por uma grande transformação. O país cresceu e, pela primeira vez, cresceu distribuindo renda e oportunidades, incluindo a classe trabalhadora e as mais pobres. 36 milhões de pessoas saíram da miséria. Alcançamos niveis inéditos de emprego, renda e jovens na universidade. Acompanhamos um processo inédito de redução das desigualdades sociais e regionais. Muita coisa mudou de lugar. O Brasil mudou de lugar no mundo, aumentando seu protagonismo e firmando alianças com outras nações em desenvolvimento. O nordeste mudou de lugar dentro do Brasil, crescendo e resgatando a dignidade da região. Questões de gênero, etnico-raciais e de orientação sexual passaram para o primeiro plano, movidas pelas lutas da sociedade, por políticas sociais, afirmativas e de combate à violencia.

 

A juventude também mudou de lugar, trazendo a cultura das periferias para o centro, dando protagonismo as novas formas de comunicação; mudando a cara do mundo do trabalho; e a cara do Brasil com um número recorde de estudantes universitários. Em uma explosão que ainda precisa ser melhor compreendida, a juventude também ocupou o centro da política, com o complexo e contraditório momento que ficou marcado a partir de junho de 2013, colocando em cheque antigas estratégias políticas e econômicas em nosso país.

 

O Brasil ainda tem enormes desigualdades, violências e atrasos que precisam ser combatidos e superados. Todos os avanços devem ser encarados como parciais. Muitas pessoas, grupos sociais e questões nacionais ainda necessitam de respostas. Os avanços que tivemos podem sempre ser revertidos e a reação à inclusão social cresce na mesma medida em que lutamos para democratizar o país em todas as suas esféras. Ao lados das oportunidades, existem muitas precariedades que precisam ser encaradas como desafios do novo momento e dos novos sujeitos, no emprego, na educação e no acesso à cidade.

 

Ao mesmo tempo, não foram feitas reformas estruturais na política, nas comunicações, na carga tributária, na estrutura urbana e rural, fazendo com que tenhamos que conviver hoje com estruturas atrasadas que se levantam como barreiras à ampliação da soberania, da justiça social e do aprofundamento da democracia.

 

Apesar da prioridade dada à questão eleitoral, tivemos governos que realmente fizeram a diferença na vida das pessoas. No entanto, precisamos encarar o fato de que faltou politização. Enquanto governamos o Brasil, todo o nosso campo politico perdeu o enraizamento e o convívio no cotidiano dos velhos e novos bairros, velhas e novas escolas, velhos e novos locais de trabalho e espaços de experiência cultural. Nesse vácuo, visões de mundo individualistas, meritocráticas e conservadoras ganham espaço e nos colocam diante da certeza e do desafio de que mudar a sociedade vai além do bolso, matrículas e contratos. Precisamos de muita luta e organização. Precisamos mudar junto com a cara e os desafios de nosso povo, misturando a nossa militância com o cotidiano da juventude e, assim, contribuindo com o seu envolvimento, reflexão e mobilização nos temas mais imediatos e mais amplos do Brasil.

 

Todo esse processo de transformação teve uma contribuição enorme do Partido dos Trabalhadores e de todo o campo democrático-popular, com a ousadia política necessária para canalizar os ventos mundiais favoráveis, colocando-os a serviço da melhoria da vida de quem sempre tinha ficado de lado. Ao mesmo tempo, temos que ter a humildade de reconhecer que fomos parte e não o todo neste processo: houve muita luta, esforço coletivo e individual. Esforço esse que será ainda mais importante no período que se inicia, com os sinais cada vez mais claros de esgotamento de expedientes conciliatórios priorizados na última década.

 

A crise econômica mundial persiste e acelera o esgotamento do modelo implementado até aqui. Sem crescimento, não é possivel continuar melhorando as condições de vida do povo. O cerco do mercado financeiro e de setores alheios ao projeto popular pautaram o primeiro semestre do governo Dilma, eleito com muita luta e unidade do campo das esquerdas. A política adotada pelo governo não dá uma saída para a preocupação do povo brasileiro e, em especial, da juventude. Com o ajuste fiscal, o aumento do desemprego e a perda de direitos trabalhistas, a situação das trabalhadoras e dos trabalhadores mais jovens, que contam com empregos mais rotativos, piorou. À crise econômica e à politica econômica equivocada do governo, somam-se a crise politica promovida pelo oportunismo da direita e da midia monopolizada. A direita política faz do enfraquecimento do segundo governo Dilma o seu caminho para voltar ao poder, seja por meio do golpe, seja por meio do sangramento da presidenta Dilma, do ex-presidente Lula e de nosso partido, de olho nas eleiçoes de 2018.

 

O avanço conservador no congresso e em setores da sociedade trouxe à tona pautas que afetam o conjunto da sociedade brasileira. Afetam os direitos das crianças e adolescentes no Brasil, com a redução da maioridade penal; a própria democracia, com a contra-reforma política comandada por Eduardo Cunha na Câmara; a soberania, com as investidas contra a Petrobras; os direitos trabalhistas, com a terceirização. Essas propostas ecoam no parlamento o agravamento da violência social contra a população negra, a perseguição às esquerdas e o clima de hostilidade e intolerância com todas e todos que ousam defender o aprofundamento da democracia em nosso país, por compromisso político e urgência social.

 

A presente tensão leva às ruas milhares de pessoas. De um lado, persistem os protestos golpistas com caracateŕisticas fascistas que levam um número nada despresível de pessoas para as ruas de todo o país; de de outro, cresce a unidade da esquerda em diversos ensaios de uma frente, que se dá em torno da defesa do mandato constitucional de Dilma, da crítica ao conservadorismo do Congresso Nacional e da crítica à política econômica encabeçada por Joaquim Levy.

 

É nesse complexo quadro que ocorre o III Congresso Municipal da Juventude do Partido dos Trabalhadores.

 

Nosso desafio é construir uma juventude do PT que esteja aberta e dialogue com a sociedade em sua complexidade e diversidade. Uma juventude que esteja nas mobilizações, nas frentes democráticas e populares, nas redes, nos ruas, nos locais de trabalho, nas escolas e nas faculdades. Uma JPT que esteja atuando de forma orgânica junto às lutas e reivindicações que têm à frente a própria juventude, no movimento das negras e negros, mulheres, LGBTT; nos movimentos de ocupação, disputa do espaço público urbano, da liberdade nas redes, nos debate sobre drogas, educação, cultura e transporte.

 

Para que isso seja possível, a JPT precisa se abrir e ir além das disputas internas, construindo espaços politicos de acúmulo e mobilização que ultrapassem os limites das correntes, dos mandatos e dos governos. A JPT precisa ser espaço de fortalecimento e ampliação das lutas cotidianas da juventude. Por isso, é preciso dinamizar a nossa militância, descentralizando os espaços de organização e dando mais coesão ao conjunto de ativistas petistas. Acima do PT, só as lutas populares e democráticas da sociedade. É urgente estabelecer entre nós uma cultura política e uma direção que coloquem a JPT no trilho das lutas da Juventude, da unidade bem construída para dentro e para fora, buscando sempre a vitória nas lutas centrais da juventude e de todo o povo.

 

A diversidade de opiniões e tendências no PT é um mérito e não um defeito, é característica de um partido democrático de massas à altura do país continental e cheio de caras e demandas que é o nosso. Mas precisamos de um modelo de organização que estimule mais convergências e construção coletiva que divergências e desconfianças, colocando a JPT à altura do difícil momento que enfrentamos. Se o conservadorismo cresce em oposição aos avanços sociais que tivemos no Brasil, também cresce a procura de jovens ativistas pelo PT, jovens críticos e cheios de gás, que querem se somar à defesa do partido e de um novo Brasil. Mas as portas do partido, infelizmente, levam a um labirinto que desestimula a crítica, a militância e a renovação, conduzindo a pequenos grupos que operam mais na lógica da disputa do partido que na lógica da disputa da sociedade.

 

Além disso, sabemos a importância de ter o Partido dos Trabalhadores a frente dos governos e a diferença que nossas políticas públicas fizeram e fazem na vida das pessoas. Desse modo, precisamos no próximo período de eleições nos organizar e participar ativamente da campanha eleitoral por entender que a juventude terá papel fundamental e para continuar a colocar nosso projeto em prática na cidade de São Paulo. A ocupação do espaço público, a participação social, o passe livre para estudantes de baixa renda, as políticas públicas de inclusão social e  visibilidade das pessoas trans e LGB, os programas de incentivo a práticas culturais realizadas pela juventude e editais que buscam promover a ocupação de jovens nos equipamentos da prefeitura (tais como bibliotecas e centros culturais) são algumas das nossas marcas e, para seguir esse caminho, precisaremos de uma JPT forte e atuante: antes, durante e depois do período eleitoral reivindicando as demandas da juventude frente aos nossos governos.

 

Neste sentido, o caminho que propomos para a juventude do PT é:

 

 

-   OCUPA DZ: A criação e fortalecimento de uma seção de juventude em cada DZ do PT. Onde o DZ não estiver ativo, buscar o local na região em que a juventude costuma se encontrar para ali estabelecer a JPT, fortalecendo-a e integrando-a aos debates gerais do partido e da juventude onde nossos desafios são maiores e tem crescido: nas periferias de São Paulo; promover atividades culturais e políticas ocupando o espaço do DZ abrindo suas portas;

       

- FORMAÇÃO POLÍTICA: Organização de grandes atividades de formação política da juventude, com outros grupos, partidos e ativistas do campo democrático-popular, buscando ao mesmo tempo retomar a discussão de visão de mundo com a juventude e fortalecer as experiências de frente a partir do nosso campo político;

 

-   NÚCLEOS DA JPT: Estimular e acompanhar a criação de núcleos da JPT, por local específico ou temática (ex. “Universidade São Judas Butantã” ou “universitários”), onde se organizem ativistas de todas as tendências e também aqueles que não reivindicam qualquer tendência, sendo espaço para quem já constroi a JPT e para aqueles que estão chegando;

 

-    NÚCLEOS DIGITAIS: Adotar o modelo de registro digital dos núcleos na JPT, dinamizando tanto a atividade direta dos núcleos quanto o seu contato com o restante da organização;


-     DESCENTRALIZAÇÃO DA JPT: Que uma das tarefas da executiva da JPT seja representar todas as regiões a partir de coordenadores por região da cidade e grandes áreas de atuação, descentralizando e democratizando a direção da JPT, corrigindo vícios que criamos ao longos dos anos e nos dando condições reais de conduzir um trabalho político efetivo em uma cidade de mais de 10 milhões de habitantes como São Paulo;


-       MOBILIZAÇÃO: Organizar a JPT para os atos públicos de rua, garantindo a unidade petista nestes momentos, resgatando nossa identidade visual e nosso papel nas lutas populares;


-    PUBLICAÇÕES PERIDÓDICAS: A produção de uma publicação periódica (virtual e/ou impressa, a depender das finanças), que sirva de apoio à integração dos jovens petistas, à divulgação de atividades e ao debate de ideias entre nós;

 

-      AUTONOMIA POLÍTICA E DE FINANCEIRA: Estruturar uma política de finanças séria, pautada na autonomia da JPT frente a quaisquer outros organismos e no compromisso da militância;

 

-   AMPLIAÇÃO DA JPT: Um plano de massificação da JPT, organizando as energias que bateram a porta de nosso partido na eleição de Fernando Haddad em 2012, na difícil eleição de Dilma em 2014 e na presente polarização social. É preciso organizar um mutirão para ir atras destes jovens que estiveram na linha de frente defendendo o projeto politico que construímos, mas que não fomos capazes de incorporar em nossa construção cotidiana. Precisamos de uma juventude que funcione para além das eleições. Não podemos nos permitir o luxo de perder braços, pernas e ideias inovadoras para defender e renovar nosso projeto.


Ao longo destas linhas procuramos mostrar o que significa a candidatura da companheira Luna, que esta se colocando à disposiçao das companheiras e companheiros para assumir a tarefa de Secretária Municipal da JPT. Os problemas que apontamos são de responsabilidade de todos nós, assim como a construção de soluções. A JPT é o futuro desta enorme ferramenta da classe trabalhadora e do povo brasileiro que é o PT. Somos de um partido que optou por sair sempre mais vivo e mais forte das crises que enfrentasse quando escolheu ser democrático, há 35 anos, na sua fundação, quando nenhum de nós neste III congresso era nascido. De lá para cá, foram muitas as vezes que parte da imprensa, da oposição e de setores sociais que se identificam com outros valores que não a justiça social e a democracia, atestaram que o PT estava morto. Olhando para trás, podemos dizer que saímos sempre diferentes e com novos desafios, mas sempre vivos e mais fortes, mais próximos do povo brasileiro. Precisamos ter a humildade de aprender com o passado, com aqueles que ja foram a juventude que luta no Brasil, que pegaram em armas, fizeram greves, lutas e arte. Mas não é hora de nostalgia. É hora de olhar para frente e construir o futuro do projeto popular, do Partido dos Trabalhadores e do sorriso do povo brasileiro. O melhor aprendizado que temos a tirar da nossa própria historia é que nosso partido e nosso sonho de mudar o brasil só sobreviveram mais de três décadas, contra a vontade de quem não quer que as coisas mudem, porque soube assumir como suas as dores, as necessidades e o sorriso do povo brasileiro. Se o momento não é fácil para o PT, é preciso ter certeza de que a saída para superar nossas dificuldades é assumir como nossas as dificuldades e desafios da juventude, e construir em cada canto da cidade o futuro que sonhamos e novos sonhos.

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