Tarcisio Secoli: Não temos o direito de ser ingênuos

Compartilhar

 

O Brasil era em 2011 a sexta maior economia do mundo. Este ano devemos cair duas posições. Mas ainda continuamos grandes. À essa grandeza, de mercado interno, dimensões continentais e riquezas à espera da descoberta, impõe-se responsabilidade. Atraímos a atenção do mundo com ações que passaram da formulação de políticas sociais para milhões de pessoas à tentativa de institucionalização de um gravíssimo golpe contra a democracia, urdido, tramado, capitaneado e orquestrado por decisões (menores, revanchistas e chantagistas) de “aliados”.

Precisamos rechaçar o pragmatismo do vale-tudo. Da mais nova moeda de troca, o impeachment. Com todas as letras, não ao golpe. Sofri a repressão militar por lutar por essa abençoada democracia, para votar, para eleger o presidente do Brasil. Destituir, sem motivos legais, uma presidente eleita pelo povo é abdicar do direito de escolha.

Isso é sério. É abrir precedentes que remontam em nossa história ao golpe militar de 1964. Por isso, a situação é urgente. Independentemente de ideologias, deram início a um processo para derrubar a democracia, para levar no tapetão e afrontar o Estado Democrático de Direito pelo qual brasileiros foram mortos, torturados e desaparecidos.

Tem um ditado muito antigo: “quem cala, consente!”. Como escreveu o vice-presidente, as palavras voam, tanto quanto a escrita revela sentimentos profundos, escamoteados durante anos.

Tenho lido muita coisa na imprensa e me pergunto: como, esse que já foi considerado o quarto poder, escreve em suas páginas cristalinamente a chantagem feita a um presidente da República, a barganha pela governabilidade? Perdeu-se a vergonha de ser imoral.

Todo poder emana do povo, diz a Constituição Brasileira. E o povo fez a sua escolha. Goste ou não, isso não é razão para arquitetar um processo de impedimento que a cada ação executada pelo presidente da Câmara dos Deputados se revela uma trama sórdida contra a democracia.

Voltaremos à rua em sua defesa. Entidades da sociedade civil, sindicatos, juristas, partidos políticos, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), CUT, governadores de Estado e estudantes ocuparão as ruas e avenidas, até chegar em Brasília.

Reafirmo: apesar da crise que o capital mundial atravessa, a situação brasileira sofre mais os reflexos políticos do que econômicos. No Brasil, vivemos sob o regime presidencialista. Esse sistema exige do presidente da República maioria na Câmara e no Senado para governar. O mesmo vale para prefeitos e governadores.

Essa maioria é obtida por meio de um governo de coalizão, no qual partidos aliados indicam quadros na administração. Quando não há harmonia entre as legendas, tudo vira crise. E a economia trava.

O erro do governo é não ter conseguido fazer com que o diálogo refaça laços e mantenha compromissos para romper essa letargia que contamina a indústria a despeito do que o Executivo faça.

Nós, brasileiros, não podemos ser ingênuos a ponto de ignorar, por exemplo, interesses econômicos em jogo no meio desta crise. Devemos cumprir o nosso papel, assumir as responsabilidades e nos posicionarmos contra o impeachment, que tem na decisão do ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), o primeiro raio de lucidez (mesmo que em caráter liminar).

A política deve ser tratada com P maiúsculo, com P de Povo, de Progresso e de País.

 

* Tarcisio Secoli, economista e secretário de Serviços Urbanos da Prefeitura de São Bernardo do Campo ​

Últimos artigos

Por Rui Falcão: Uma semana decisiva que culmina dia 28
segunda, 24 abril 2017, 18:14
    O PT apoia e participa da greve geral nesta sexta-feira, e sua Executiva Nacional estará em Curitiba dia 2 de maio, em homenagem à festa da democracia do dia 3   Paulo Pinto/Agência PT Ato preparatório para a greve geral do... Leia Mais
Por Rui Falcão: A necessidade de derrubar Temer e eleger Lula
terça, 18 abril 2017, 15:08
  Nosso caminho é aumentar as mobilizações, repelir o canto de sereia dos acordos por cima, defender os direitos e lutar pela antecipação das eleições   A impopularidade e o descrédito crescentes de Temer & seus asseclas; a... Leia Mais
Simão Pedro Chiovetti: A gestão Doria – vender SP
quarta, 12 abril 2017, 16:37
  Doria em menos de 100 dias demonstrou que não tem apego algum por SP e muito menos pelos paulistanos da periferia e classe média   Próximo de completar apenas 100 dias à frente da Prefeitura de SP, já é possível perceber que as... Leia Mais
Por Vitor Marques: 100 dias de governo João Doria: a São Paulo virtual e a São Paulo real
quarta, 12 abril 2017, 15:06
  Empossados os novos governos, via de regra, é esperado que a população tenha uma receptividade e uma tolerância maior com aqueles que estão iniciando a nova gestão. Este período é conhecido no vocabulário político como “lua... Leia Mais
Por Emídio de Souza: Algo está errado
terça, 11 abril 2017, 21:35
  Algo está errado. Contrariando a tradição da política brasileira, um partido chama seus filiados a debater seu futuro e escolher seus dirigentes. Mais de 250 mil atendem ao chamado e, sem serem obrigados, vão às urnas em quase 4... Leia Mais