Por Nabil Bonduki: Proposta vai matar a Virada

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Com a proposta esdrúxula de transferir as principais atrações da Virada Cultural para o autódromo de Interlagos, o prefeito eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), ameaça exterminar um dos festivais culturais mais criativos e importantes do mundo, transformando-o em um evento convencional, facilmente mercantilizado.

O que diferencia a Virada é a interação com o espaço público, em especial no centro, região repleta de praças, largos, viadutos, avenidas e edifícios de interesse histórico e cultural. Circular livremente entre esses espaços, participando das mais diversas manifestações e linguagens artísticas, é o grande diferencial desse evento.

A Virada foi importante para promover o "reencantamento" dos paulistanos com a cidade e a ocupação cultural do espaço público, que cresceu enormemente na gestão do prefeito Fernando Haddad (PT).

Ademais, o centro é o lugar melhor conectado por transporte público, permitindo interação de todas as classes sociais, de todas as zonas da cidade. 

Já se criticou muito a Virada sob a alegação de que concentraria em um único evento, em apenas 24 horas, em uma só região um orçamento gigantesco que absorveria parte significativa dos recursos para contratação artística da prefeitura. Desde 2013, entretanto, isso já vem mudando, de maneira muito efetiva. 

Como ex-secretário de Cultura na gestão Haddad, enfrentei esse problema sem descaracterizar a Virada. Ela passou a integrar um calendário anual de eventos em espaços públicos, ao lado de outras manifestações realizadas em todas as regiões na cidade, como o Aniversário de São Paulo, o Carnaval de Rua, o Mês do Hip-Hop, o Mês da Cultura Independente, as Viradinhas Culturais e a Jornada do Patrimônio.

Ao mesmo tempo, foi criado o Circuito Municipal de Cultura, que utiliza dezenas de equipamentos culturais do município -teatros, casas de cultura, CEUs, bibliotecas e centros culturais- para a realização de espetáculos durante todo o ano, em todas as linguagens artísticas, além de debates e palestras.

Assim, a Secretaria Municipal de Cultura cumpriu a meta de estar em todas as regiões da cidade o ano inteiro, mantendo e renovando a Virada nos últimos 12 anos.

Com essa diretriz, a Virada passou nos dois últimos anos por modificações relevantes que buscaram ampliar seu potencial e superar problemas de violência.

Para garantir mais segurança, o perímetro do evento foi reduzido, evitando-se a criação de trechos desocupados e escuros onde ocorriam arrastões. A área foi iluminada por "led" e os percursos entre os palcos foram ocupados por barracas de alimentação e artesanato.

Durante a madrugada, os palcos ficaram ainda mais concentrados, aumentando a sensação de segurança. A violência caiu significativamente, tornando-se residual. Em 2016, foram registrados apenas quatro furtos e nenhuma ocorrência policial grave. 

Por outro lado, neste ano o período do evento foi ampliado para dois dias, iniciando-se na sexta-feira à noite, o que permitiu ao trabalhador do centro participar após o fim do expediente, sem a necessidade de se deslocar no final de semana.

Do ponto de vista da cidadania cultural, abriu-se espaço para artistas menos consagrados e manifestações de cultura popular, negra, indígena e periférica.

Em 2015, o Vale do Anhangabaú tornou-se polo dessas manifestações culturais, que ganham cada vez mais peso na cidade. Mas se a cultura periférica veio ao centro, não descuidamos da descentralização da Virada, que ocorreu em todas as 32 subprefeituras, com inúmeros eventos em palcos, equipamentos culturais e ruas abertas.

Com essa Virada na Virada, como escrevi em artigo publicado nesta Folha em maio, superamos antigas críticas e problemas, aperfeiçoando o evento, que passou a gastar uma porcentagem muito menor do orçamento da cultura.

Matar a Virada, transformando-a em uma espécie de rave em Interlagos, é mais um erro anunciado pelo prefeito Doria. Esperamos que mude de ideia, como, aliás, vem fazendo em vários temas de interesse da cidade.

NABIL BONDUKI, arquiteto e urbanista, é vereador (PT) em São Paulo e professor titular de planejamento urbano na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi secretário municipal de Cultura (gestão Haddad)

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